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A MÍDIA COMO MANIPULADORA DA OPINIÃO PÚBLICA

A MÍDIA COMO MANIPULADORA DA OPINIÃO PÚBLICA

OS EMPRESÁRIOS DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO À SERVIÇO DO PODERIO ECONÔMICO APÁTRIDA

São Paulo, 01/10/2007

Referências: Mercado de Capitais, Mídia - Meios de Comunicação - Jornais, Revistas e Emissoras de Rádio e Televisão.

Depois que o site do Cosife passou a criticar a atuação da imprensa de modo geral, em consonância com o programa Observatório da Imprensa exibido pela TV Cultura de São Paulo, integrando a Rede Nacional de TV Educativa - TVE, outros profissionais, principalmente da imprensa verdadeiramente livre, vêm a público mostrar as mazelas da profissão de jornalista. Eis um resumo dos textos com argumentos de diversos segmentos sobre a atuação da Mídia, fazendo o papel de Lobista muito bem remunerado em favor do poderio econômico da oligarquia escravocrata brasileira.


Como os jornalões desinformam o cidadão

Por Hélio Fernandes - Jornal Tribuna da Imprensa - 26/09/2007

Festejaram a volta das bolsas como vitória da economia e do crescimento

O que é Liberdade de Imprensa? É o direito ou a obrigação de informar o leitor? Ou é o que praticam, o hábito, a tradição e o respeito aos seus próprios interesses? Noutro dia, numa conversa (detesto as palavras palestra ou conferência) na UERJ e na UFRJ (vou a tantas que depois me esqueço), me perguntaram: "O que o senhor precisaria para fazer o melhor jornal diário brasileiro?".

Respondi imediatamente, com convicção, conhecimento e simplicidade: "Não preciso de muito dinheiro. Quero apenas a volumosa matéria diária que a `Folha', o `Estado' e `O Globo' não publicam porque contraria seus interesses". Muitos alunos riram, mas para satisfação e boa informação, professores presentes aplaudiram, "o jornalista está certíssimo".

A famosa Primeira Emenda da Constituição dos EUA é citadíssima no mundo todo, só que poucos sabem interpretá-la: protege eventualmente o direito dos jornalistas, mas esses jornalistas estão submetidos ao sistema do patrão. Durante muitos anos escrevi: "Sou o único dono de jornal que sabe escrever e escreve diariamente. Mas sou também o único que defende o direito do jornalista escrever com liberdade, principalmente em defesa do INTERESSE NACIONAL".

Com a turbulência financeira, que tentaram "explicar" como quebra de pagamentos das hipotecas nos EUA, Ha! Ha! Ha!, o compromisso dos jornalões com o "sistema" ficou mais evidente. E não foi apenas no Brasil. Os jornalões de Washington, Londres, Roma, Madri, Buenos Aires, Tóquio, Pequim, Moscou e por aí vai ficaram "alarmados".

Tomemos por base o Brasil. O Índice, que estava em 58 mil pontos, caiu v-o-l-u-p-t-u-o-s-a-m-e-n-t-e até 46 mil pontos. Os bancos centrais do mundo inteiro jogaram 600 ou 800 BILHÕES para "salvar os mercados". Novamente: Ha! Ha! Ha! Este repórter foi o único a dizer várias vezes: "O mundo não está em perigo, não há crise alguma, apenas sentiram a possibilidade de uma tacada maior. E o Índice voltará ao limite onde estava, sem qualquer receio".

Adivinhei? Inventei? Nada disso. A turbulência começou no dia 24 de julho, ontem 24 de setembro, voltou ao ponto de partida, com jogadores muito mais ricos. Vejamos como os jornalões comemoraram, estouvada, insensata ou irresponsavelmente.

A Folha: "Bolsa sobe, bate recorde e volta ao nível pré-crise". Antes só falavam na crise das hipotecas, esqueceram?

O Globo: "Bolsa anula perdas e bate recorde histórico". Ainda se deu ao luxo de lembrar, "a alta anulou as perdas causadas pela crise imobiliária nos EUA". Advertência vernacular: usar a palavra ANULAR duas vezes em um texto de 16 linhas de uma coluna é displicência.

Correio Braziliense, uma festa: "De novo nas alturas". E o mesmo texto lugar-comum de todos, "Bolsa se recupera (colocaram RECUPERA-SE, corrigi, fiquei constrangido) da crise imobiliária", patati-patatá.

O Estado, numa linha, sabiam que todos sairiam iguais: "Bolsa recupera perdas da crise". A seguir a mesma tolice dos outros. Jornal do Commercio, uma linha discreta, "Bolsa atinge mais um recorde". Ninguém informou se foi criado 1 emprego, se melhorou a vida das comunidades, em suma, se houve ganho para alguém a não ser os jogadores.

Esta Tribuna da Imprensa, como não considerou queda a jogatina de antes, agora também não considerou alta. Jogatina antes, jogatina depois, por que perder espaço?

PS - Os jogadores de fora COMPRARAM em 20 dias 19 BILHÕES, VENDERAM 17. Ficaram com quase 2 BI, por que abandonar o pano verde?

Veja o texto As Agências de Rating Novamente Acusadas - As Bolsas de Valores como Cassino Global.

BREVES DO HÉLIO FERNANDES - Tribuna da Imprensa


OS SINAIS EXTERIORES DE RIQUEZA E A CORRUPÇÃO

Comentário: Esse policial civil, "flagrado" com uma BMW que custa mais do que o seu salário de 30 meses (quase 3 anos de trabalho, sem desviar recursos para as despesas do dia-a-dia), nada inédito ou surpreendente. Surpreendente mas não inédito é o exibicionismo impune, a ostentação, a arrogância dos privilegiados, favorecidos, protegidos.

Um dia, em pleno governo, Carlos Lacerda me disse: "Estou impressionado. A maioria de pedidos que recebo, de gente importante, é para a transferência de policiais para a DCD. (Delegacia de Costumes, Jogos e Diversões, a mais poderosa da época).

Almoçávamos no restaurante simples que ele construíra no [Palácio] Guanabara [sede do Governo do Estado do Rio de Janeiro]. Acabou, falou: "Vamos visitar essa delegacia". Fomos.

Na Avenida Washington Luiz, pegada à Cruz Vermelha. Descemos do carro, era um casarão, o pátio lotado de carros último tipo. Lacerda deu uma olhada, não entrou, disse: "Vamos". Só isso.

Mandou fazer uma investigação rigorosa, ficou estarrecido. Jornalistas da revista O Cruzeiro e do Correio da Manhã, e de outros, figuravam entre os que tinham maiores indicações.

Um deles, riquíssimo, mereceu um livro do repórter Luiz Mac Doufle, magistral. Levantou dezenas de fazendas dele. Pelo visto, nada mudou.

Nota do Cosife: Como esses fatos aconteceram na década de 1960 quando Carlos Lacerda era governador do antigo Estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro), podemos ver que o problema é antigo. A única diferença para o que vem acontecendo é que agora os corruptos estão sendo perseguidos.


O MENSALÃO MINEIRO DO PSDB

Já o ministro Mares Guia, envolvidíssimo no "mensalão-mineiro-valerioduto-eduardoazeredismo", foi finalmente desenterrado.

E terá que ser velado em praça pública. Não esquecer: o PSDB reconheceu o escândalo do governador-senador, tirou-o logo da presidência do partido.


CASAGRANDE É VÍTIMA EM ACIDENTE

Todos os jornais televisivos da TV Globo diziam anteontem e ontem: "O ex-jogador Casagrande, vítima de um acidente de carro, passa bem". Ótimo que passe. Mas ele foi CAUSADOR e não VÍTIMA.


LULA NA ONU

Portinari - O nosso genial pintor teve lembrança maravilhosa, nos 50 anos do painel "Guerra e Paz". Discurso de Lula na ONU, livro, retrospectiva com todos os croquis.

O presidente Lula falou na ONU. A tecnologia não permite saber se de improviso, já que quando acabou tinha dezenas de folhas na mão.

O mais importante (naturalmente excluída a parte política e a propaganda de etanol, sem nenhuma assessoria) foi a referência a Portinari, a seus painéis, à própria ONU, "Guerra e Paz".

João Candido (filho de Portinari) estava com ele, e ajudou muito. (Da mesma forma que Lula deveria ter levado Bautista Vidal, para fornecer ao presidente os dados mais importantes sobre energia renovável). Lula situou muito bem o "Guerra e Paz".

Em outubro, comemoração dos 50 anos dos painéis da ONU, será lançado um livro, que se chamará naturalmente "Guerra e Paz". Terá tudo referente à produção do painel, em todas as fases ...

Nesse livro, uma carta belíssima do presidente Lula ao executivo do "Projeto Portinari", seu filho João Candido.

Posso dizer com a maior satisfação: precisou um operário chegar a presidente para que o nosso maior e mais genial pintor tivesse consagração tão carinhosa e emocionante.

NEOCOLONIALISMO AMBIENTALISTA

O jornalista Lorenzo Carrasco, membro destacado da MSIA, editou o livro "Máfia Verde, o ambientalismo a serviço do governo mundial". Foi tal a repercussão, que o New Iorque Times, arrogante-porta-voz-patrimonialista-não-do-jornalismo-mas-da-subserviência-aos-empresários-financeiros-poderosos, registrou o aparecimento do livro.

De Nova Iorque pediram matéria a Larry Rohter, que estava deixando o lugar de correspondente, parou para cumprir a ordem. O título da matéria publicada parece até isenta para quem não costuma devassar seus escaninhos e desconfiar dos faturamentos.

De qualquer maneira, o livro de Lorenzo Carrasco caminhou com tal velocidade das prateleiras das livrarias para as mãos dos leitores que ele já publicou o segundo, quase com o mesmo título, mais ampliado e abrangente: "Máfia Verde 2: ambientalismo, novo colonialismo".

E Rohter, surpreendentemente deixa dúvidas sobre a ONG Fundo Mundial para a Natureza. "Tanto pode contribuir para conservar a floresta amazônica como representar um complô para entregá-la a controle internacional". Aposto na segunda.

Nota do Cosife:

Fato interessante dessa questão foi divulgado em documentários apresentados pelo Jornal da Record sobre o Meio Ambiente. Num dos programas, foram comentados os problemas que serão causados pelas hidrelétricas a serem construídas na Amazônia, que contam com fervorosos opositores no IBAMA e no Ministério Público. Uma das alegações dos opositores é a de que a construção da hidrelétrica do Rio Madeira causará problemas ecológicos e para as populações que vivem da exploração da pesca.

Entrevistando os pescadores e mostrando como era realizada a pesca, com a utilização predatória de redes (arrastão), a TV Record deixou claro que os peixes já são raros no lado boliviano, em razão da exploração do ouro no Rio Beni, um dos rios formadores da bacia do Rio Madeira. Como o governo boliviano não controla o garimpo, é largamente utilizado o mercúrio, que tem dizimado a pesca ribeirinha.

Veja o projeto do Complexo do Rio Madeira no site do BNDES. Veja os estudos realizados sobre os poluentes originários da utilização do Mercúrio, cujo símbolo é Hg, no Garimpo de Ouro no Rio Beni.

Infelizmente não mais é possível ler os textos endereçados. Foram retirados dos referidos sites. Faz-se interessante salientar que em muitos sites são modificados os endereçamentos, provavelmente para que os textos outrora publicados jamais sejam encontrados novamente, o que em parte comprova o afirmado no título desta página.


A MARCHA DOS "SEM-MÍDIA"

Por Lula Miranda poeta e cronista. Colabora para veículos da mídia alternativa, como os sites da Carta Maior e da revista Caros Amigos, dentre outros. Revista Caros Amigos - Correio Eletrônico 307 de 19/09/2007.

Eis que, em meio ao comodismo e indiferença de muitos, surge mais um louvável movimento reivindicatório no seio da sociedade. Ainda incipiente, mas a princípio, notadamente se tomamos por base seus princípios, louvável.

Já tínhamos as justas demandas dos sem-terra e dos sem-teto, só para citar alguns dos muitos e vexatórios exemplos de “despossuídos” desse país tão pródigo em riquezas e, paradoxalmente, tão pleno também em desigualdades. Agora é a vez dos “sem-mídia” libertarem-se da inércia, ocuparem as ruas e colocarem a boca no trombone – ou melhor, no megafone. E dizer a que vieram.

Foi sem carro de som, mas portando um singelo megafone (comprado a partir de contribuições voluntárias de alguns participantes – a chamada “vaquinha”) que o gerente de exportações e “blogueiro” Eduardo Guimarães, 47, conduziu, naquela manhã ensolarada de sábado, 15/09, das 10h até cerca de meio-dia, a primeira manifestação do “MSM”, o auto-intitulado “Movimento dos Sem-Mídia”.

O ato se deu, emblematicamente, na porta do jornal Folha de S.Paulo – este, segundo os integrantes do movimento, um inquestionável paradigma de veículo da mídia que pratica um tipo de jornalismo bastante em voga hoje em dia. Um jornalismo alicerçado num moralismo e “denuncismo” seletivos, espúrios, que protege a uns e ataca a outros. Com o gravame de, em alguns casos – como o da própria Folha – alardearem-se “pluralistas” e “imparciais”. Mas este veículo não é o único e privilegiado alvo do “MSM”. A revista Veja, o “Estadão” e a/o Globo também estão em sua alça de mira – os jornalistas sabujos dos patrões e os que venderam a alma ao mercado (e aos mercadores de mentiras e maledicências), também. Estão previstas novas manifestações no RJ e, mais uma, na cidade de São Paulo. Esta última, em frente ao prédio da Editora Abril, onde fica a redação da revista Veja, numa das margens das pútridas e fétidas águas do Rio Pinheiros.

Guimarães leu, sempre franqueando a palavra aos demais manifestantes, um manifesto/documento que foi, ao final, entregue na portaria do jornal. Ao fundo, uma faixa, dentre tantas, onde se podia ler: “Que a mídia fale, mas não nos cale”. Quase todos os manifestantes ostentavam etiquetas no peito onde se podia ler: “MSM”, ou, “MSM – Contra o império da mentira”. Alguns ainda rasgaram cartas e boletos bancários com propostas de assinaturas, e jogaram na sarjeta – literalmente – exemplares da Folha e da Veja.

Uma das principais bandeiras do movimento, estabelecidas cabalmente em seu, um tanto prolixo, manifesto (ler em http://edu.guim.blog.uol.com.br), é a defesa do pluralismo e da verdade factual na cobertura feita pela mídia. Os “sem-mídia” se dizem “apartidários”, e acrescentam que, em face disso, não defendem ou estão a serviço do partido X ou Y, do governo W ou Z. Questionam (e condenam) o caráter oligárquico do “mercado” da comunicação no Brasil. E trazem à tona, como pauta de discussão junto à sociedade, importante tema e questão: a informação é “mercadoria” preciosa e estratégica que está nas mãos de poucas famílias – muitas das quais serviram diligentemente ao regime militar e hoje seguem servindo, também de maneira diligente, àqueles que Raymundo Faoro chamava de os “donos do poder”. Também alertam para a gritante impropriedade (isso para dizer o mínimo) de muitas concessões de rádio e TV estarem nas mãos de políticos e/ou de apaniguados destes.

Para alguns, decerto, pode parecer pouco um ato em que participaram “apenas” duas centenas de brasileiros, quase todos oriundos da classe média. Mas se levarmos em conta o individualismo e o comodismo dos indivíduos nos dias modorrentos e apáticos em que hoje vivemos, esse feito agregador/arregimentador dos “sem-mídia” não é nada desprezível – ao contrário. Outro dado importante a se considerar: o movimento já “pulula” e espalha seus brados na internet e na “blogosfera” e conta com o apoio, bastante diverso, de jornalistas, professores, intelectuais, desempregados, estudantes, profissionais liberais e outros mais. Lá, no mundo virtual, seguramente, já passam das duas centenas reunidas em SP, já chegam aos milhares.

Este observador pode até estar equivocado, mas o “MSM” parece ser uma onda que cresce, de modo espetacular, se agiganta e se espalha. E parece ter vindo para ficar. Assim seja. A marcha dos “sem-mídia” deve prosseguir. Quem ganha com isso é o jornalismo – e o país. E, claro, o povo brasileiro.

A QUESTÃO DA NOMENCLATURA

Por Guilherme Scalzilli - historiador e escritor. Autor do romance “Crisálida” (editora Casa Amarela) - Revista Caros Amigos - Correio Eletrônico 305 - 06/09/2007.

A pauta política dos grandes veículos [de comunicação, vulgarmente chamados de Mídia] obedece à cronologia da conveniência. Os assuntos perdem relevância quando seus desdobramentos contrariam as motivações que inicialmente justificaram a exploração dos fatos. Portanto, antes que outros motes ocupem as atenções gerais, é necessário impedir que a cobertura jornalística sobre a aviação civil mergulhe na obsolescência. Talvez assim entendamos melhor um dos tantos episódios sombrios da história da imprensa brasileira.

Nasce uma crise –
A propaganda maquiada de jornalismo inventou o esgotamento infra-estrutural fulminante. Enquanto no resto do planeta fenômenos semelhantes são processos longos e cumulativos, nossa crise aérea floresceu em apenas quatro anos. E o sucateamento do transporte ferroviário? E o Plano Diretor para a Infraero, de 1982, que já sugeria a ampliação de Cumbica e a limitação do movimento de Congonhas? Por que Viracopos foi subutilizado por duas décadas? Não importa. Antes dos gestores petistas, incompetentes e corruptos, voar no país era supimpa.

No entanto, ainda que se concorde com a premissa do colapso, ele não explica todos os eventos identificados com o “caos aéreo”. Quem associou a paralisação dos aeroportos à administração federal foram os próprios controladores amotinados. A imprensa usou-os como bodes expiatórios para inaugurar a crise, legitimando suas reivindicações, e depois criticou a demora das autoridades em puni-los.

O movimento acabou em março e o tráfego foi normalizado, mas a simbologia do infortúnio permaneceu. Quando rompemos as mistificações do noticiário, descobrimos que os problemas nos aeroportos são superdimensionados e embaralhados para transmitir a falsa impressão de uma crise generalizada e ininterrupta. A maioria dos vôos realizados nos últimos cinco meses transcorreu normalmente, exceto sob condições atmosféricas inadequadas. Entretanto, mesmo atrasos de poucos minutos e problemas causados por neblina ou tempestades entram na conta do “apagão”.

O governo criminoso –
Para o colunista Ricardo Daudt, o governo “assassinou mais de duzentas pessoas”, porque “sabia” que os acidentes iriam ocorrer. Reinaldo Azevedo concordou: “As mortes têm mesmo a ver com o governo federal”, que é “assassino culposo”, pois fabricou “360 mortos”. Diogo Mainardi ressaltou o “descaso criminoso” e a “barbárie aérea”. Mesmo quando não chega a esse nível de insensatez, a maioria dos analistas afirma que as tragédias teriam sido evitadas em outro contexto administrativo.

Mentira. O choque do Boeing da Gol com o jato Legacy foi causado por erros dos controladores de vôo e dos pilotos estadunidenses. A explosão do airbus da TAM originou-se numa falha mecânica, provavelmente agravada por imperícia do piloto. O governo federal não influenciou as fatalidades, cuja relação causal com um suposto “apagão” é nula. Crises aéreas não desligam transponders, não travam reversos nem pousam com manetes em posição errada.

Apenas cínicos e insensíveis culpam governos por acidentes dessa natureza, politizando terríveis perdas humanas, manipulando a comoção pública e desprezando o rigor apurativo. Até desabafos indignados estão sujeitos aos limites da decência e da legalidade – por isso nenhum idiota saiu gritando que FHC e seus tucanos eram culpados pela queda do Fokker 100 da Tam, em 1996.

O mais preocupante dessas deturpações é que elas contribuem para a sobrevivência dos problemas reais. As empresas aéreas, eternas causadoras de transtornos, aproveitam a tolerância da mídia (afinal, são grandes anunciantes) para incrementar sua rotina de abusos e desrespeitos contra os passageiros. Funcionários grosseiros, overbooking, filas intermináveis e aeronaves defeituosas viraram sintomas da enfermidade petista. Previsivelmente, assim que as práticas lesivas receberem punições merecidas, o governo será acusado de planejar a falência das companhias.

Terminologias
– Cerca de duas mil pessoas morreram nas estradas paulistas desde outubro, quando o tal “apagão” surgiu. Cinco vezes o número de mortos nos acidentes aéreos. Na capital, o trânsito vive em colapso permanente, escancarando a saturação dos transportes públicos. Há décadas, todo dia, milhões de cidadãos enfrentam congestionamentos gigantescos, com média de absurdos 111 km nos horários de pico.

O excesso de veículos está para os congestionamentos como o aumento de passageiros para o caos nos aeroportos. A falta de verbas que justifica uma ridícula malha metroviária também explicaria a escassez de terminais e pistas. As mesmas chuvas que param o trânsito impedem pousos e decolagens. Mas por que ninguém enxerga um “apagão dos transportes” em São Paulo?

Os defensores da mídia oposicionista argumentam que essa polêmica se resume a um estéril debate sobre nomenclaturas. E talvez estejam certos. A essência das coisas independe do vocabulário utilizado.

Se existe quem equipare saguões tumultuados às sobretaxas, racionamentos e blecautes do governo FHC, é razoável que alguém veja na “crise aérea” uma invenção midiática. Se “apagão” não define uma calamidade que afeta diariamente uma população proporcional à da Bélgica, a prudência aconselha não ver apagões em lugar algum. “Golpista” representa apenas um adjetivo possível para uma imprensa que se desvia de suas atribuições constitucionais com o objetivo de ludibriar o (e)leitorado. Chamá-la “democrática” não modifica sua natureza.

O mesmo vale para os comentaristas. Clóvis Rossi qualifica seus críticos como “debilóides do lulo-petismo”. Augusto Nunes prefere “subespécie”, “idiotas” e “cretinos”. Outros usam “chimpanzés”, “raça maldita” e “imbecis”. Se esse jargão demonstra independência ou ignorância, cabe ao público avaliar. O fato é que a expressão “apagão aéreo” encaixa-se perfeitamente no repertório dos seus divulgadores.


A MÍDIA NÃO LARGA MAIS O OSSO

Postado por Luiz Weis em 30/9/2007 às 12:09:45 PM - site Observatório da Imprensa.

Desde a publicação dos editoriais "Teatro mambembe", na Folha de quinta-feira, 27/09/2007, e "O nome é o de menos", no Estado do dia seguinte, que relacionam o "tucanoduto", como diz a Folha, ao mensalão petista, caiu de vez em exercício findo a teoria conspiratória de que a mídia acobertava o esquema de irrigação com recursos ilícitos da campanha reeleitoral do governador mineiro Eduardo Azeredo, do PSDB, em 1998.

A rigor, essa teoria já tinha sofrido profundo golpe com a matéria de capa da revista IstoÉ de dois fins-de-semana atrás, antecipando trechos cabeludos do caudaloso relatório da Polícia Federal a respeito do delito - cujo nome, como bem observou o Estado "é o de menos", para pôr no devido lugar a bizantina polêmica caixa 2 x mensalão, que equivale à tentativa de partir um fio de cabelo no sentido do comprimento.

E foi a imprensa que arrancou de Azeredo a admissão já comentada neste blog [do Observatório da Imprensa] de que o dinheiro que bancou a sua campanha bancou também a de Fernando Henrique em Minas.

É verdade que a imprensa tardou em abocanhar o osso. Mas agora que o fez, não dá sinais de que pretenda largá-lo. Enquanto não aparece um Roberto Jefferson para ligar o ventilador na velocidade máxima, os jornais vão agregando o que podem ao caso.

Com base nas investigações da PF, o repórter Frederico Vasconcelos pôs na manchete da Folha de hoje que, na função de juiz eleitoral em Minas, Rogério Tolentino, que viria a ser advogado de Marcos Valério, "recebeu verba do valerioduto durante a campanha de Eduardo Azeredo" e "votou a favor do tucano em datas próximas a depósitos em sua conta e na de sua mulher" - R$ 302 mil ao todo.

Para a polícia, trata-se de "recursos de estatais desviados para o caixa de coordenação financeira da campanha".

Nota do Cosife: Veja, com dados concretos, como funcionavam algumas das formas de desvio de dinheiro de entidades governamentais:

Outro repórter da Folha, Rubens Valente, buscou mostrar o que o "valerioduto mineiro" e o mensalão têm de comum e de diferente. Segundo ele, as diferenças são três: no primeiro caso, os pagamentos a políticos ocorreram exclusivamente em ano eleitoral e os empréstimos bancários usados para o esquema foram quitados; no segundo caso, houve pagamentos no exterior para empresa criada em paraíso fiscal.

Muito bem. Mas o principal foi esquecido: a razão de ser das duas operações, em última análise. E nesse ponto as semelhanças pesam muito mais que as diferenças, digamos, técnicas.

Uma e outra serviram para financiar políticos aliados e aliados em potencial.

São robustos os sinais de que o tucanoduto ajudou a cacifar as campanhas de uma centena e meia de candidatos de diversos partidos, em 1998, ou porque eles foram leais aos interesses do governo Azeredo no seu primeiro mandato, ou para assegurar essa lealdade, na Assembléia estadual, na Câmara dos Deputados e no Senado, no desejado segundo mandato que acabou não se concretizando.

No mensalão, o valerioduto abasteceu deputados de diversos partidos já no exercício do mandato, para que engrossassem a base parlamentar do governo Lula e votassem de acordo com os interesses do Planalto. Além disso, companheiros que não precisariam ser subornados para votar com o seu governo puderam beber da mesma fonte para quitar dívidas de campanhas passadas ou formar pecúlio para campanhas futuras.

Aqui e ali há casos que não se enquadram nessa moldura. Mas a regra foi essa. Se se quiser, a única diferença entre os dois esquemas, descontada a periodicidade dos pagamentos, é cronológica. Uns foram aquinhoados antes de se eleger. Outros, depois. No mais, o que deles se esperava em troca era essencialmente a mesma coisa.

A Folha não foi a única a "voltar ao local do crime" neste domingo. No Estado, a repórter Vera Rosa fez o ex-vice de Azeredo e atual ministro de Lula, Walfrido Mares Guia, pular miudinho numa entrevista de página inteira.

Ele disse o esperado e algumas preciosidades: "Eu tenho plenas condições de desfazer os mal-entendidos ou insinuações que apareceram em relação ao meu nome... Estou firme como uma rocha... Não tive envolvimento com a área financeira da campanha de Azeredo... Eu não participava de nada disso [caixa 2 com desvio de recursos públicos, na oportuna lembrança da repórter]... Como é que eu ia imaginar uma coisa dessas?... Só quem foi candidato sabe o que é a vida numa campanha, porque você não controla as coisas que estão acontecendo ao lado... Pessoas querem ver chifre em cabeça de cavalo..."

Ele só há de ter convencido a cupinchada amiga e o pessoal preocupado com o que pode sobrar do envolvimento de Mares Guia para o governo Lula.

Confira em "Ponho a Mão no Fogo por Azevedo" - Walfrido Mares Guia - Jornal O Estado de São Paulo - por Vera Rosa.

P.S.Quando o repórter não sabe com quem está falando

Nos últimos anos 1970, com a ditadura de 1964 já se arrastando para os finalmentes, a imprensa, partindo da Folha de S.Paulo, teve a histórica iniciativa de abrir as suas páginas aos acadêmicos da área de ciências humanas, notadamente do trio de ferro sociologia - ciência política - antropologia.

Eles ganharam espaço sem precedentes para escrever - o que teve reconhecido papel na destilação do repúdio ao regime nas novas gerações de leitores, oriundos da mesma classe média que nos anos Medici colava nos seus carros o infame "Brasil, ame-o ou deixe-o".

Além disso, passaram a ser entrevistados rotineiramente sobre as questões em relação às quais se presumia que tivessem algo a dizer, a julgar pelas suas credenciais. E isso se incorporou "em definitivo", como diria o Galvão Bueno, aos usos e costumes do jornalismo brasileiro.

Mas, apesar das assessorias de comunicação das faculdades, a quem os repórteres costumam recorrer, entre outras fontes de auxílio, para saber qual professor ou pesquisador tem cacife para falar sobre isso ou aquilo, de vez em quando os diários escolhem o doutor errado para entrevistar;

O resultado é o pior dos mundos. Porque o cidadão fala do que não sabe - raros, no meio, têm a dignidade de recusar uma entrevista porque o tema não é o seu forte; porque o repórter compra docilmente o gato pela lebre; e porque o pobre do leitor tende a pagar o pato por imaginar que, se o jornal pegou o professor Fulano para comentar tal assunto, é porque ele é o homem certo no lugar certo.

Exemplo disso é a entrevista do repórter Moacir Assunçã com o professor de Ciência Política, da FGV, Marco Antonio Teixeira, no Estado de ontem.

Começa do título "Fisiologismo virou negociação política". Virou?!? E o que era a negociação política nos governos anteriores? Entendimentos baseados em princípios doutrinários compartilhados?

Terá sido por comunhão de valores com o presidente da República que Renan Calheiros - para citar o político da temporada - se tornou lulista desde criancinha, depois de ter sido ministro da Justiça de Fernando Henrique?

Noventa por cento do que se lê na entrevista são coisas tidas e sabidas: a longevidade das práticas fisiológicas na política nacional, a impossibilidade de governar sem o toma-lá-dá-cá, a mudança do discurso petista depois que o partido chegou ao poder, a característica eminenemente regional das lideranças do PMDB, exacerbando a pressão por verbas e cargos, o desnorteamento da oposição.

Pior são os 10% restantes - a resposta do entrevistado à angelical pergunta "O que é preciso para pelo menos reduzir o fisiologismo?", que fecha o pingue-pongue. Eis o que o professor diz:

"Precisamos de uma reforma política que torne o quadro partidário mais enxuto. É importante rediscutir a cláusula de barreira, de forma que fiquemos com menor número de legendas e a negociação seja mais institucional, não com caciques. A instituição da fidelidade partidária é outra providência."

Tirando o adendo final, que tem pé e cabeça, o resto é um assombro. Estão representados na Câmara 19 partidos. Mas o governo só precisa barganhar com uma fração desse total, sobretudo, obviamente, com a legenda dona da maior bancada - para variar, o PMDB, com cerca de 20% das cadeiras. Essa realidade não mudaria uma vírgula com um "quadro partidário mais enxuto".

Cientistas políticos deviam saber que, daquelas 19 siglas, conta apenas a meia dúzia que decide as votações. Imagine se o inquilino do Planalto perde o sono com o PSC, PTC, PMN, PHS, PT do B e assemelhados.

E antes que me esqueça: desde quando no Brasil se faz negociação política "institucional, não com caciques"?

Veja o texto do Cosife: As Alianças Políticas e a Governabilidade.