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A BALANÇA COMERCIAL, O CÂMBIO E OS SALÁRIOS

A BALANÇA COMERCIAL, O CÂMBIO E OS SALÁRIOS

TENTANDO PREJUDICAR O GOVERNO LULA,- ESPECULADORES DESVALORIZARAM O REAL EM 2002

São Paulo, 14 de novembro de 2002 (Revisado em 24/03/2019)

Referências: Balanço de Pagamentos, Transações Correntes, Reservas Monetárias, Inflação: Preços ao Consumidor Brasileiro atrelados aos Preços no Mercado Internacional, Desvalorização Cambial - Câmbio - Aumento das Exportações, Redução das Importações, Subfaturamento e Superfaturamento, Supervalorização da Moeda Nacional, Paraísos Fiscais.

TENTANDO PREJUDICAR O GOVERNO LULA, ESPECULADORES DESVALORIZARAM O REAL EM 2002

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

Parece que o povo brasileiro, os nossos empresários e principalmente os economistas governamentais de plantão ainda não entenderam a importância do câmbio na fixação e na elevação dos salários internos.

Por enquanto os empresários brasileiros só pensam no aumento de preços internos e nem sabem exatamente porque devem aumentá-los.

Os economistas, conforme seus próprios colegas de profissão dizem, ainda não explicaram a razão de aplicarem no Brasil teorias ou técnicas diferentes das aplicadas nos países desenvolvidos e nos chamados "Tigres Asiáticos".

E os especuladores do mercado de capitais, sem que tivessem tal intenção, acabaram nos mostrando o caminho para o desenvolvimento nacional e para a criação de empregos, que os gestores de nossa política econômica nunca conseguiram enxergar.

Esse caminho foi o da desvalorização da moeda brasileira, que foi feita de forma ilegal pelos especuladores, manipulando os preços de oferta e procura do dólar no mercado de capitais, crime este que se enquadra nos termos da Lei 7.913/1989.

O resultado da desvalorização de nossa moeda foi o aumento das exportações e a redução significativa das importações, que fatalmente aumentará do nível do emprego interno. E esta política de manutenção de nossa moeda desvalorizada também se tornou importante durante o governo Lula.

Porém, parece que os empresários exportadores ainda não entenderam que só se faz justiça social repassando aos trabalhadores parte dos ganhos extras conseguidos com as exportações, aumentando os salários e as participações dos empregados nos lucros das empresas.

Esses ganhos extras dos exportadores, ao contrário do que muitos pensam, não são pagos pelos consumidores estrangeiros, mas sim pelo governo brasileiro ao emitir papel moeda para comprar os dólares recebidos pelos empresários em suas vendas ao exterior.

Por esta razão é injusto que se aumente os preços internos dos produtos de exportação sob a alegação de que estão atrelados ao preço internacional, sem que de fato tenha havido o aumento dos preços em dólares. Aliás, no mercado internacional geralmente acontece o inverso: são valorizados os produtos exportados pelos países desenvolvidos (importados por nós) e desvalorizados os produtos exportados pelos subdesenvolvidos e pelos ditos emergentes.

Havendo esses ganhos extras, o mais justo seria aumentar os salários dos trabalhadores brasileiros para reduzir o grande desnível social entre pobres e ricos. Isto não vem acontecendo justamente porque o preço do dólar sempre foi muito baixo e dava estreita margem de lucro aos exportadores, impossibilitando-os de aumentar os salários de seus empregados.

O Brasil é um país carente de tecnologia não por incapacidade de seu povo, mas em razão de má gestão política e econômica. Os dirigentes brasileiros nunca se preocuparam em investir em tecnologia, preferindo sempre importá-la já obsoleta. Mas, existem países que, ao contrário do Brasil, necessitam exportar produtos de alta tecnologia para que possam importar produtos básicos de alimentação e matérias primas que não existem em seu território.

Veja o texto intitulado Os Países e suas Reservas Estratégicas.

Esse é o caso específico do Japão, que importa quase todo o petróleo que necessita, além de muitos outros produtos minerais e agrícolas. E, apesar de não ter ferro, carvão e manganês, tem grande parque siderúrgico, com potencial de produção muito maior do que o brasileiro. Devemos destacar que, depois da Rússia, o Brasil tem a maior reserva de ferro, seguido da Austrália que é o maior exportador desse minério para o Japão.

Por que o Japão instalou grande parque siderúrgico em seu território, mesmo sem ter as matérias primas básicas para produção do aço?

Obviamente que foi para gerar empregos e lucros.

Do exposto, podemos concluir que o Japão é um país essencialmente exportador de mão-de-obra e o mais importante é sabermos que exporta mão-de-obra muito cara, ao contrário do Brasil que exporta mão-de-obra barata e mesmo assim não consegue concorrer em preços.

Por que o Brasil não consegue concorrer em preços, mesmo com mão-de-obra barata?

A principal razão está na supervalorização da moeda nacional, que tem sensivelmente prejudicado nossas exportações e causado o desemprego interno. Mas, existem outras razões, quase todas por culpa dos empresários, tais como, a subfaturamento das exportações e a superfaturamento das importações de bens de produção ou de matérias primas. E esses crimes sonegação fiscal são praticados com o intuito de desviar lucros para paraísos fiscais e evitar a tributação dos mesmos.

A grande vantagem do Brasil em relação ao Japão é que aqui existem as matérias primas não só na área da siderurgia como em muitas outras áreas que o Japão não possui. Na siderurgia temos outra vantagem: o Brasil tem grande potencial para a produção de carvão vegetal, que é renovável e menos poluente do que o carvão mineral usado pelo Japão, pelos Estados Unidos e pelos países europeus. No Brasil há ainda a possibilidade de aproveitamento da palha e do bagaço da cana oriunda da produção do açúcar e do álcool. Este último também é exportado para ser adicionado à gasolina, porque é menos poluente e mais barato que os demais aditivos necessários para aumentar a octanagem (índice de octanos - hidrocarboneto saturado com oito átomos de carbono).

Sendo assim, por que o Brasil não é um país desenvolvido?

Simplesmente por falta patriotismo e nacionalismo em nossos dirigentes públicos e em nossos empresários. E isso foi largamente observado quando da privatização de nossas empresas estatais durante o Governo FHC e dos constantes casos de desvios de verbas dos cofres públicos, de lavagem de dinheiro e de remessas para paraísos fiscais com a utilização de brechas deixadas nas normas expedidas pelo Banco Central.

Por que o Japão desvalorizou sua moeda, quando o iene se valorizou a ponto de um dólar custar menos do que cem ienes?

Porque a supervalorização do iene incentivava as importações e desestimulava as exportações, tal como aconteceu no Brasil no duplo Governo FHC. Foi nessa época que explodiu o desemprego e o fechamento de empresas. Estes fatos também foram observados no Japão com a valorização do iene. A outra razão é que a desvalorização da moeda nacional japonesa permite aos exportadores pagarem maiores salários em razão do aumento de seus ganhos.

E por que nunca se adotou essa política de desvalorização com a moeda brasileira?

Porque nossos dirigentes elitistas sempre estiveram mais preocupados em subsidiar as importações de supérfluos dos mais ricos e pouco interessados em resolver os problemas sociais dos mais pobres, que poderiam ser facilmente resolvidos com emprego e salário justo.

Os nossos economistas elitistas formados no exterior, contrariando a política econômica japonesa, dizem que o aumento do dólar gera inflação e foi por isso que no governo FHC por longo tempo foi mantida a paridade cambial entre o real e o dólar. Note-se que o mesmo aconteceu na Argentina por período muito maior do que aqui. Note-se também que, contrariando o que dizem nossos economistas, mesmo com altos salários e com a desvalorização da moeda, no Japão não há inflação.

Felizmente, parece que nossos economistas entenderam seu erro mais rapidamente do que os gestores da política econômica da Argentina. Porém, depois disso, os nossos ficaram por longo tempo perdidos sem saber exatamente o que fazer, até que os especuladores resolveram tomar a iniciativa com intuito diverso, que seria o de dar um desfalque nos cofres públicos quando do resgate de títulos cambiais emitidos e de contratos de swap firmados pelo governo brasileiro.

É evidente que a desvalorização da moeda gera inicialmente certa inflação devido ao aumento de preço dos produtos e dos materiais importados. Mas aqui há um agravante, que é o problema da mentalidade retrógrada do empresariado. Ao aumentar os preços dos produtos exportados, sem o proporcional aumento dos salários, há maior concentração de renda na mão dos mais ricos (os empresários, principalmente os exportadores) e há aumento da pobreza dos mais pobres, aumentando também a criminalidade e a economia paralela (aquela que não paga imposto).

Existe uma outra vantagem na adoção dessa política de manter o preço do dólar elevado e ela interessa especialmente aos credores do Brasil. Com o aumento das exportações existirão reservas para o pagamento da dívida externa. Sem elas os credores internacionais estariam fadados ao calote.

Como resultado das exportações e do aumento de salários nas empresas exportadoras, aumentará o consumo interno e será fomentada a produção, gerando mais emprego, maiores salários e maiores ganhos também para os empresários que não são exportadores.

Diante dessa colocação, é certo imaginar que o aumento das exportações, sem a distribuição de renda na forma de salário, não interessa aos empresários que vendem apenas ao consumidor interno.

Conclusão: Se o setor exportador não gerar emprego com salários justos, não haverá benefício econômico e social para a população brasileira, incluindo-se nesse grupo os empresários não exportadores.

Obviamente que os recursos despendidos pelo governo brasileiro em razão da desvalorização da moeda serão compensados pelo saldo positivo da Balança Comercial. Em razão do aumento do consumo interno, dos lucros e dos salários, aumentará a arrecadação de impostos (mesmo com a redução de alíquotas) e em razão da maior rotatividade da moeda nacional, aumentará o depósito compulsório nos cofres do Banco Central (mesmo com a redução de seu percentual).

A arrecadação de impostos e os depósitos compulsórios só aumentarão se for combatida eficazmente a sonegação. E essa eficiência só é possível com a admissão de pessoas com competência técnica e legal para a execução da fiscalização (auditoria) nas empresas. Há enorme falta de contadores (auditores) nos quadros de fiscalização cuja base é a contabilidade. Essa falha é antiga e precisa ser corrigida para que haja eficiência e menor corrupção.

Está mais do que provado que, com pessoas capazes e sem apadrinhamento nas diversas funções da administração pública, a corrupção diminui.