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A GESTÃO EMPRESARIAL COMO DOENÇA SOCIAL - A ARTE DE TURVAR IDEIAS

A GESTÃO EMPRESARIAL COMO DOENÇA SOCIAL - A ARTE DE TURVAR IDEIAS

AS CRÍTICAS ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS E AO CAPITALISMO BANDIDO

São Paulo, 19/03/2014 (Revisado em 26-01-2019)

Referências: O Capitalismo Bandido dos Barões Ladrões, Fraudes Contábeis e Financeiras das Multinacionais, Wall Street e o Gerenciamento de Ativos - Asset Management.

  1. MANAGEMENT DOENTIO - Por Thomaz Wood Jr - 30/10/2013
    • O GERENCIAMENTO EMPRESARIAL COMO DOENÇA SOCIAL
  2. A ARTE DE TURVAR IDEIAS - Por Thomaz Wood Jr - 28/11/2013
    • A TEORIA NA PRÁTICA É OUTRA
  3. SUPERESTRELAS DE WALL STREET - Por Paul Krugman - 09/03/2014
    • O PODER E A COBIÇA DOS MAGNATAS DO MERCADO DE CAPITAIS

Edição dos textos originais em letras pretas, com anotações e comentários em azul por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

1. MANAGEMENT DOENTIO - A GESTÃO EMPRESARIAL COMO DOENÇA SOCIAL

Por Thomaz Wood Jr. Publicado por Carta Capital - Economia & Opinião em 30/10/2013

Manchete:

Sociólogo francês argumenta: os modernos modelos de gestão constituem uma patologia social, capaz de atrair e seduzir suas vítimas [como fazem os vigaristas ou estelionatários].

Veja também:

O Capital, último filme do diretor Costa-Gavras, baseado em romance homônimo do francês Stéphane Osmont, retrata as peripécias de um alto executivo de um grande banco europeu, às voltas com golpes e negociatas.

Não é a primeira vez que o citado diretor de filmes icônicos sobre sistemas políticos, como Z (1969) e Estado de Sítio (1972), se debruça sobre o mundo corporativo.

Em O Corte (1995), o diretor grego retratou a vida de um executivo desempregado que, em busca de nova colocação, decide matar seus concorrentes.

Sua longa filmografia é marcada pela capacidade de identificar e chamar a atenção para questões políticas e sociais sensíveis, produzindo thrillers de narrativa bem ritmada.

Veio também da França, igualmente a denunciar doenças da sociedade contemporânea, o sociólogo Vincent de Gaulejac.

O mencionado professor de sociologia da Universidade Paris, que esteve recentemente no Brasil, tem pesquisado como as mudanças na organização do trabalho submetem os indivíduos a contradições e dilemas morais.

Os novos modelos de gestão [gerenciamento ou administração], disseminados em todo o mundo pelas empresas de consultoria, trouxeram o antigo conflito entre capital e trabalho para o nível psicológico do indivíduo.

Os menos capazes em lidar com o contexto são estigmatizados e afastados. Os sintomas são conhecidos: desgaste psíquico, estresse, depressão e até suicídio.

O argumento central de Vincent de Gaulejac, desenvolvido no livro Gestão como Doença Social (Editora Ideias e Letras), é que a disseminação das práticas do management constitui fator de instrumentalização e alienação dos profissionais, ao colocá-los diante de paradoxos insolúveis.

Os paradoxos estão no centro do modelo:

  1. espera-se autonomia, porém dentro de limites restritos;
  2. fomenta-se a criatividade, mas a partir de um sistema super-racional;
  3. espera-se total comprometimento com a organização, ainda que a possibilidade de demissão esteja sempre presente.

Os novos modelos de gestão fazem crer que somos capazes de atingir desempenhos superiores, conquistar metas e nos realizarmos.

Somos capturados pela ilusão narcisista de grandes conquistas.

O sistema faz com que percamos o verdadeiro sentido do trabalho e nos orientemos cegamente para o atendimento de metas fixadas pela organização.

Reagimos adoecendo e procurando ajuda de médicos, psicólogos e coaches.

Acreditamos que o problema nos diz respeito individualmente, não coletivamente.

Gaulejac vê o management como uma ideologia e uma tecnologia de poder, que instrumentaliza e mercantiliza o ser humano. E é difícil de combater, por se mostrar relativamente discreto, neutro e pragmático.

Na superfície, o management é constituído por conhecimentos, modelos e técnicas de gestão, a contabilidade, o marketing, a gestão de recursos humanos e as demais disciplinas da administração.

Abaixo da linha d’água, entretanto, o management serve para manipular as subjetividades humanas, adequar o indivíduo a um novo padrão de comportamento.

Sob a ideologia do management, cada profissional deve se tornar um agente da cultura corporativa, capaz de encarnar a alma da empresa, de agir segundo os interesses do dono: com iniciativa, autonomia, criatividade e responsabilidade.

O management oferece a possibilidade, ou a ilusão, de conquista de poder e de transformar empresas e sociedade. Promete a satisfação dos desejos individuais. A felicidade vem, supostamente, do sucesso e da capacidade de empreender.

O indivíduo deve alcançar sempre mais, na busca incessante da miragem da excelência. Cada profissional deve superar seus pares e a si mesmo, continuamente.

Busca-se a utopia da qualidade, que, segundo Gaulejac, remete a um mundo perfeito, livre de contradições e conflitos.

Em troca, o moderno Sísifo (*) é supostamente recompensado por um efêmero sentimento de autorrealização, até a pedra rolar morro abaixo e ele ter de retomar a tarefa.

(*) Na mitologia grega, Sísifo, filho do rei Éolo (da Tessália) e Enarete, era considerado o mais astuto de todos os mortais.

O novo padrão [impingido aos executivos, administradores ou gerenciadores] busca o controle do corpo, da mente e da alma [mediante doutrinação ou lavagem cerebral]. Esse padrão avançou por todas as latitudes nas últimas décadas. E segue a passos firmes.

Em breve, estará em mais uma empresa, organização estatal ou ONG perto de você!

2. A ARTE DE TURVAR IDEIAS - A TEORIA NA PRÁTICA É OUTRA

Por Thomaz Wood Jr. Publicado por Carta Capital - Educação & Ciência em 28/11/2013

Pesquisador inglês, incomodado com o jargão científico, investiga as razões do hermetismo acadêmico nas Ciências Sociais

A Administração de Empresas é uma profissão. É também uma ciência social aplicada, na qual pesquisadores se debruçam sobre os mais variados fenômenos. Finanças, marketing, recursos humanos, gestão de operações. Cada uma dessas áreas de atuação do administrador abrange centenas de temas continuamente observados e analisados por exércitos de pós-doutores, doutores e quase doutores.

Tudo em prol da ciência e da prática administrativa... Teoricamente.

A massa de conhecimento [teórico] gerado é impressionante. Os 30 periódicos científicos mais importantes do mundo publicam, cada um, 50 a 60 artigos ao ano.

Além dessa seleta lista, há dezenas de outras revistas acadêmicas, congressos e teses produzindo conhecimentos muito além da imaginação de qualquer gerente de agência bancária.

Entretanto, como ocorreu em outros campos científicos, a superespecialização no campo da administração [empresarial] tornou parte dos artigos e trabalhos desenvolvidos inacessível à maioria dos mortais.

[...]

Michael Billig, professor da Universidade Loughborough, no Reino Unido, realizou uma longa reflexão sobre as causas do hermetismo nas ciências sociais. No livro [editado], o autor descreve sua frustrante experiência com leituras acadêmicas.

Ao iniciar o doutorado, Billig sentia-se incapaz diante dos textos científicos. Sua estratégia de sobrevivência consistia em “traduzir” o que lia em termos mais simples. Vez por outra, finalizada a “tradução”, ficava perplexo e perguntava para si mesmo:

- Teria sido uma falha sua ou aqueles autores estavam apenas a escrever trivialidades com uma linguagem rebuscada?

Ao longo da carreira acadêmica, Billig desenvolveu uma visão ácida acerca dos textos acadêmicos e sua prosa pomposa, frequentemente pobre de ideias. Segundo ele, nas últimas décadas, aumentou consideravelmente a pressão para produção de artigos científicos.

Cada campo se torna mais e mais fragmentado: a academia transformou-se em uma gigantesca colcha de retalhos, habitada por pequenos círculos de pesquisadores, produzindo apressadamente.

Dentro dessas pequenas tribos, pesquisadores determinam seus temas de investigação pensando em assuntos que agradem a seus pares e facilitem futuras publicações, não com base no que pode ser do interesse das organizações ou da sociedade.

Além disso, acadêmicos competem por recursos, cargos e atenção. Por isso, agem como pequenas agências de publicidade, dispostos a vender produtos para seus pares e editores de revistas científicas.

A superespecialização e o hermetismo geram impactos negativos também na formação de futuros gestores.

Em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, Dominique Turpin, diretor do IMD, renomada escola suíça de administração, comentou que as instituições de ensino estão se tornando cada vez mais acadêmicas, buscando professores não por sua capacidade de ensino, mas por sua capacidade de publicar artigos científicos.

Tais profissionais são experts, como exemplifica Turpin, em trilhas sonoras para supermercados, cores para rótulos de garrafas ou preços na indústria farmacêutica.

Então, faz as seguintes perguntas: - Como poderão ensinar gestores que precisam ter visão generalista e o domínio de assuntos variados? - Onde estará a resposta, meu amigo? - Soprará ao vento?

Comentários dos leitores da Revista Carta Capital:

Internauta "A" - A fragmentação excessiva do conhecimento está levando a comunidade científica ao retrocesso e ao anacronismo perdendo sua relevância e aumentando ainda mais a desconfiança da sociedade pós-moderna que teme o encapsulamento do conhecimento, acessível apenas a uma pequena elite que possa pagar, sem no entanto financiá-lo.

Como nos tenebrosos tempos da idade das trevas, quando os padres nos diziam até o que pensar, pergunta-se:

  1. Será que estamos prestes a vivenciar um desastre semelhante?
  2. Alienados das grandes descobertas científicas, iludidos pelo fetichismo de mercado, será que esses pseudo técnicos e pseudo acadêmicos estão nos levando para a hecatombe de nossa confusa civilização apenas para seguir a lógica do capital?

Hiroshima e Nagasaki que nos digam...

Internauta "B" - No meu período acadêmico já havia uma professora que demonstrava essa preocupação com a especialização generalizada. Ela sempre dizia que era necessário ser especialista, mas ao mesmo tempo generalista, pois existe a necessidade de se saber muito sobre um determinado assunto e a de saber o suficiente sobre todo o restante.

Internauta "C" - A academia perdeu a essência romântica, por assim dizer, de lutar para melhorar a sociedade [coletividade]. Estamos com nosso conhecimento muito fragmentado, perdendo a noção de todo. Assim, os cientistas sociais acabam se tornando apenas cumpridores de metas formais.

3. SUPERESTRELAS DE WALL STREET - O PODER E A COBIÇA DOS MAGNATAS DO MERCADO DE CAPITAIS

Os lobos do mercado financeiro estão mais para Gordon Gekko [Bandido audaz] do que para Homem de Ferro [Justiceiro]. No filme Wall Street - Poder & Cobiça, Gordon Gekko (Interpretado pelo ator Michael Douglas) é um milionário ganancioso e frio, que ignora os sentimentos quando trata de negócios (lucro fácil e rápido), tornando-se inescrupuloso.

Por Paul Krugman - Laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 2008. Publicado por Carta Capital - Economia & Análise em 09/03/2014

O economista de Harvard, Greg Mankiw, escreveu mais uma vez em defesa dos 0,1% mais ricos dos mortais – em recente editorial do New York Times intitulado “Sim, os ricos podem ser merecedores”, e desta vez é um tanto incrível.

Antes que eu chegue à parte incrível, porém, basta de estrelas de cinema – o primeiro ponto a que se referiu Mankiw. Sim, um punhado delas ganha muito dinheiro, mas são uma parte trivial da história.

As camadas superiores da distribuição de renda nos Estados Unidos são ocupadas de maneira avassaladora por executivos de algum tipo – corporativos, financeiros, imobiliários – e advogados que certamente são mais corporativos do que Perry Mason [advogado fictício criado por Erle Stanley Gardner, aparecendo em mais de 80 histórias onde tem de defender seus clientes de acusações de assassinato]. E mesmo os grandes nomes da mídia não são jogadores [desportistas] de fato.

Lembre-se, os 40 gerentes e corretores de fundos hedge mais bem pagos ganharam, em média, mais de 400 milhões de dólares cada em 2012. O que me leva à parte incrível do artigo de Mankiw.

[Mankiw] invoca o forte papel das rendas do setor financeiro na desigualdade americana para afirmar que essas fortunas são merecidas. “Um caso semelhante é a indústria financeira, onde podem ser encontrados muitos grandes pacotes de compensação”, ele escreve e continua.

Não há dúvida de que esse setor tem um papel econômico crucial. Os que trabalham em bancos, capital de risco e outras firmas financeiras são encarregados de alocar os recursos de investimento da economia. Eles decidem, de maneira descentralizada e competitiva, quais companhias e indústrias vão encolher e quais vão crescer. Faz sentido que o país destaque para essa tarefa muitos de seus indivíduos mais talentosos e, portanto, altamente recompensados”.

Pergunto: Será que Mankiw esteve vivendo em uma caverna desde 2006?

Estamos agora no sétimo ano de uma recessão causada pelos excessos especulativos e outros crimes financeiros praticados com a intermediação dos corretores de valores de Wall Street.

O trabalho mágico de “alocar os recursos de investimento da economia” consistiu, hoje sabemos, principalmente em canalizar dinheiro para uma bolha imobiliária, enquanto se usava engenharia financeira requintada para criar a ilusão de investimentos sólidos e seguros, pois os imóveis são considerados como garantias reais, excetuando-se os especulativamente supervalorizados, causadores do descompasso economico.

Também sabemos que há preocupações reais de que [os administradores ou gerenciadores de] fundos de investimento, em particular, na verdade destruam os valores aplicados por seus investidores, destinando-os a transações (ou apostas no Cassino Global) de altíssimo risco.

Mais uma coisa: Mankiw afirma que o sistema fiscal [norte-americano] é justo porque o 0,1% que ganha mais paga uma parcela maior de impostos federais do que a classe média [no Brasil acontece o inverso]. Isto não leva em conta a anulação parcial dessa progressividade pelos impostos estaduais e locais regressivos ao consumidor (o mesmo valor para todo mundo, independentemente da renda). E, ainda, existe o fato de os juros pagos pelo governo aos mais ricos investidores em títulos públicos serem oriundos dos impostos pagos pela classe média.

Mas, certamente, o ponto principal é que, na medida em que os impostos sobre o 0,1% mais ricos são altos (eles não são, na verdade, em contexto histórico). Isso acontece em grande parte porque Mitt Romney perdeu a eleição presidencial de 2012, de modo que a reversão parcial pelo presidente Obama dos cortes de impostos de George W. Bush e a cobrança a mais das altas rendas, que hoje financiam parcialmente a reforma da saúde, continuaram valendo.

É meio engraçado que ele esteja alegando que nosso sistema é injusto graças às políticas que ele e seus amigos tentaram desesperadamente liquidar.

De qualquer modo, os lobos [administradores ou gerenciadores de ativos] de Wall Street são mais Gordon Gekko [audazes bandidos] do que Homem de Ferro [exemplares justiceiros]. Se eles são o melhor argumento que os conservadores têm sobre a justiça da extrema desigualdade, não estão se saindo muito bem.

O interessante é que Paul Krugman está falando sobre a injustiça social nos Estados Unidos, cuja população (na média) desfruta do muito elevado IDH - Índice de Desenvolvimento Humano. Enquanto isto acontece lá nos STATES, o IDH médio do Povo brasileiro é inferior ao do Povo cubano, que todos os anticomunistas dizem ser ruim.

Philip Longman, editor sênior da revista Washington Monthly, escreveu em recente edição um artigo muito bom que desmitifica o entusiasmo sobre a economia do Texas.

Eu queria acompanhar um ponto em particular: o papel do petróleo e do gás nos últimos anos.

Esses setores respondem diretamente por uma parcela bastante pequena da economia mesmo no Texas, mas seu rápido crescimento, combinado com efeitos multiplicadores, representa uma história muito maior no que se refere ao crescimento do Texas.

Enquanto o PIB geral do Texas aumentou 13% de 2007 a 2012, o PIB nacional [norte-americano] cresceu apenas 2,5%. O que alguns cálculos sugerem é que o boom de petróleo e gás responde por mais de um quarto dessa diferença de crescimento.