início > textos Ano XX - 23 de abril de 2019



QR - Mobile Link
APOSTAS CONTRA O REAL

APOSTAS CONTRA O REAL

OS ECONOMISTAS E A MANIPULAÇÃO DAS COTAÇÕES DO DÓLAR

Folha de S. Paulo, 16 de agosto de 2001

CLÓVIS ROSSI - Folha de São Paulo

SÃO PAULO - Ney Hayashi da Cruz mostrou ontem, nesta Folha, que os bancos aumentaram suas apostas no galope do dólar sobre o real.

Ou, na linguagem de mercado, estão mais "comprados" que "vendidos". Quer dizer que estocaram dólares para vender lá na frente a um preço mais suculento.

Muito bem. Agora, ponha-se na situação de um desses economistas que aparecem todos os dias nos jornais, nas TVs, nas rádios etc., dando palpites sobre a economia. Imagine que a instituição em que ele trabalha esteja "comprada", ou seja, aposte no dólar contra o real.

Você acha que as opiniões dele na mídia ou em relatórios e em seminários serão neutras e objetivas? Você acha, honestamente, que ele será capaz de dar uma visão otimista, que ajude a criar um ambiente psicológico favorável à não-desvalorização do real, o que contrariaria os interesses do seu empregador?

Pois é assim que as coisas funcionam no capitalismo financeiro, hoje hegemônico. Nem sou eu quem o diz. George Soros, que pode ser o demo, mas entende de ganhar e de perder dinheiro, fez a mesma observação em Davos, na presença de um certo Fernando Henrique Cardoso.

FHC, aliás, até concorda, a julgar por uma frase sua de 1995: "São os países ricos que devem dizer o que fazer com este mundo que criaram, pois são outros frankensteins, e não sabem agora como controlá-los".

No entanto alguns colunistas e muitos analistas, mais a força brutal da propaganda da "pátria financeira", vendem, permanentemente, a tese de que os palpites, "ratings" e coisas que tais dessa gente toda são científicos. Lorota. Têm, sim, algo de ciência, mas muito, muito, muito mais de interesse, pesado interesse, aliás.

A verdade é simples: nesse cassinão global, os mortais comuns é que estamos todos vendidos. E mal pagos.

Leia também Ataque Especulativo