início > textos Ano XXI - 14 de novembro de 2019



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BANDIDOS, MORCEGOS E FANTASMAS

O FRACASSO DO CAPITALISMO NEOLIBERAL GLOBALIZADO

BANDIDOS, MORCEGOS E FANTASMAS

São Paulo, início de 2002 (Revisado em 19-02-2014)

Referências: Desemprego Conjuntural e Estrutural, Industrialização versus Prestação de Serviços, Reforma da Conjuntura Produtiva, Contabilidade de Custos, Substituição do Trabalho Braçal pelas Máquinas, Informática e Tobótica.

BANDIDOS, MORCEGOS E FANTASMAS

Publicado no Jornal Folha de São Paulo, em 14/10/1999 - Autor: GILBERTO PAIM - jornalista. Foi professor da Escola Interamericana de Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas/Rio. Com anotações e comentários em azul por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE.

Em 1999, durante o Governo FHC, o fenômeno do desemprego irredutível, provocado pelas novas tecnologias que multiplicam a produtividade na produção e na administração, ao mesmo tempo em que cortam empregos, encontrou São Paulo despreparada para enfrentar o problema em condições de manter a estabilidade social.

Todas as regiões metropolitanas brasileiras sofreram a incidência de altas taxas de desemprego, durante o Governo FHC. Mas o desemprego em São Paulo tinha características próprias, distinguindo-se do fenômeno que se observava, por exemplo, em Salvador (Bahia).

A notória evasão de empresas do ABCD [Região Metropolitana da cidade de São Paulo] tornou mais grave o problema, pelo desaparecimento de postos de trabalho, quando já era bem conhecido o agravamento do problema social decorrente do desemprego tecnológico.

A diferença consistia no fato de que, enquanto a área de Salvador estava em processo de expansão industrial, São Paulo se desindustrializava.

Isto é, as indústrias fugiram de São Paulo para pagarem menores salários no Nordeste brasileiro, tal como fizeram as indústrias norte-americanas e europeias que foram explorar o trabalho em regime de semiescravidão na Ásia.

As taxas de desemprego eram maiores em Salvador do que em São Paulo, mas, se considerarmos o grau de violência verificado na região metropolitana paulista, a região da capital da Bahia era uma área pacífica, onde se vivia com tranquilidade.

Na Grande São Paulo, o esvaziamento industrial juntava-se aos cortes produzidos pelas novas tecnologias para tornar improvável a reocupação de postos de trabalho. Em grande parte esses postos deixaram de existir. Obviamente gerando o grande índice de desemprego verificado depois da implantação do Plano Real.

Numa região subdesenvolvida como era a do Nordeste, a população de baixa renda está habituada a um estilo de vida que induz à acomodação com as tradicionais condições de existência, caracterizadas pela pobreza.

Na área industrialmente desenvolvida, a perda do emprego reduz o padrão de vida e inclina os desempregados ao inconformismo com a perda de renda e a desocupação involuntária.

A consequência mais imediata do desemprego [existente em 1999], numa área como a Grande São Paulo, foi a insegurança pública, que fez do medo a companhia inseparável dos cidadãos.

E parece ser esse medo a força motriz que tende a tornar São Paulo uma região economicamente debilitada, cujos habitantes de renda mais elevada só terão a certeza de preservar a vida se puderem escapar para outras regiões.

As empresas que abandonam a região metropolitana paulista fogem da violência e da insegurança, do sindicalismo radical, dos rigores do fisco e da extorsão dos fiscais, numa área onde são alarmantes os índices de poluição atmosférica. O número de assaltos diários a bancos, a casas e a pessoas chega a extremos, enquanto empresários, vítimas preferenciais de sequestradores, procuram segurança em carros blindados e em edifícios que são verdadeiras prisões de luxo.

A crise de hoje [em 14/10/1999] não tem afinidade com as crises econômicas periódicas do passado. Nas crises cíclicas anteriores predominava um estado de resignação das pessoas afetadas pelo desemprego. Era só esperar e deixar passar a onda.

Agora [em 1999], a economia nacional e mundial acha-se em transição. Está mudando de face e imprimirá na sociedade uma fisionomia tão diferente da de hoje [14/10/1999] quanto foi diferente a sociedade agrária da sociedade industrial [do Século XVIII e do Século XIX].

Caracteriza-se a transição por um incremento sensacional do volume de bens produzidos diante de um número crescente de trabalhadores desempregados. Grandes parcelas dos quase 2 milhões de desempregados da região metropolitana de São Paulo perderam seus empregos para sempre, por causa mecanização das indústrias e da busca de trabalhadores mais baratos e sem organização sindical.

Como a situação demográfica apresenta desafios constantes, a saída de pessoas que acompanhem fábricas transferidas ou fujam do terror metropolitano não deixa vazios equivalentes.

O espaço dos que saem será ocupado pelos que passam da adolescência à vida adulta para disputar um lugar no mercado de trabalho.

Foi assim que surgiu A Geração Perdida, de jovens que não conseguiam o seu primeiro emprego, razão pela qual, a partir de 2003 o Governo se preocupou em gerar empregos especialmente para os jovens.

Num quadro de desemprego crescente e constante, o aumento do contingente de pessoas desempregadas, naquela época em que foi implantado o Plano Real, criou condições favoráveis à organização de grupos de marginais predispostos à prática de atos de banditismo, agora equipados com armas modernas, cedidas quase gratuitamente pelos seus fabricantes para que depois pudessem vender idênticas armas para que as forças militares e paramilitares conseguissem combater os desempregados transformados em criminosos.

Costuma-se fazer a seguinte indagação: num contingente de 2 milhões de desempregados, concentrados numa região metropolitana, quantas pessoas poderiam ser desviadas para o crime? Obviamente com o indispensável incentivo dos fabricantes de armas.

Apenas 1% do total, diz-se. No caso paulista, estaríamos tratando de 20 mil homens e mulheres inclinados à prática de atos que envolvem audácia, disposição para matar ou morrer e capacidade de enfrentar militares não tão bem armados.

Se esse número passar ao dobro ou ao triplo, que significado terá isso para os paulistanos?

São Paulo preenchia já naquela época várias condições que podiam transformar a grande região em área dominada por bandidos e habitada por morcegos e fantasmas.

Estados vizinhos e distantes de São Paulo descobriram que é realmente fácil atrair empresas da mais populosa região metropolitana do país.

Não são poucas as empresas paulistas que se refugiaram em pacatas cidades do sul de Minas ou saíram da região para cidades do Nordeste.

Assim, já em 1999, a  insegurança estava apavorando empresários em cidades do interior do Estado, onde tinha ocorrido assaltos de suma gravidade ao patrimônio das empresas.

Diante desse panorama imensamente adverso gerado pelos gestores de nossa política econômica até 1999, somente um milagre salvará a Grande São Paulo do esvaziamento econômico seguido da desordem imposta pelos bandos de criminosos, criados pelo desemprego estrutural e conjuntural, em parte abocanhados e financiados pelo narcotráfico e por outras máfias.

São Paulo, que era considerada a locomotiva diesel-elétrica do Brasil, talvez esteja condenada a se transformar em maria-fumaça resfolegante e sem forças para cobrir grandes distâncias.

Portento, este é um texto antigo que predizia e mostrava as razões ou os motivos do que aconteceu em 2013, não somente no Brasil como em todo o mundo.

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