início > textos Ano XXI - 11 de novembro de 2019



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RESERVAS MONETÁRIAS: AS EXPORTAÇÕES CAUSARAM UMA ENXURRADA DE DÓLARES

RESERVAS MONETÁRIAS: AS EXPORTAÇÕES CAUSARAM UMA ENXURRADA DE DÓLARES

A DOENÇA HOLANDESA E A DOENÇA CUSTOS

São Paulo, 29/10/2019 (Revisada em 02/11/2019)

Referências: Incapacidade Administrativa Federal, Estadual e Municipal = Privatização e Terceirização, Incapacidade de Gerenciamento das Políticas Econômica, Monetária e Fiscal, Recessão, Desemprego. Falta de Arrecadação Tributária, Déficit Orçamentário, Falta de Investimento no Desenvolvimento Nacional. Desigualdade, Preconceito, Discriminação, Segregação Social, Inadimplência = Falência do Sistema Financeiro. Preço do Dólar Alto pela Procura maior que a Oferta, Sonegação Fiscal, Evasão de Divisas, Internacionalização do Capital Nacional,  Tributária Exportações, Déficit no Balanço de Pagamentos.

Coletânea por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

RESERVAS MONETÁRIAS: AS EXPORTAÇÕES CAUSARAM UMA ENXURRADA DE DÓLARES

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

CONSIDERAÇÕES SOBRE A DESINDUSTRIALIZAÇÃO E SOBRE A TAXA CAMBIAL APRECIADA

A HISTÓRIA MAL CONTADA

Diante da história que foi apagada por meio dos Incentivos às Aposentadorias e às Demissões Voluntárias, ocorridas no governo FHC, os novos servidores públicos em todas as esferas de governo ficaram sem os colegas que lhes poderiam contar pelo menos os amargos fatos ocorridos antes de 2003. Na década de 1990 a INTERNET ainda engatinhava e eram poucas as pessoas e empresas que a usavam. As FAKE NEWS só eram publicadas pelos tradicionais JORNALÕES, pelas revistas editadas pelos elitistas e pelas redes de rádio e televisão que se incumbiam da manipulação da opinião pública.

Até os historiadores encobriam determinados fatos. A Princesa Isabel, por exemplo, nunca foi tida como verdadeira sucessora de Dom Pedro II, embora de fato governasse o Brasil. As mulheres nem tinham o direito de votar.

OS DESACERTOS DEPOIS DOS GOVERNOS MILITARES

O que realmente aconteceu durante o Governo fica difícil de contar porque até os meios de comunicação eram censurados. Eram impedidos de publicar. Não existiam os agora existente sites dos esquerdistas. Estes só conseguiam difundir alguns fatos mediante a panfletagem, que também era reprimida pelas forças armadas.

São poucas as pessoas daquela época anterior a 2003 que ousam esclarecer ou comentar fatos ocorridos, conforme menciona Bresser-Pereira em seu artigo adiante transcrito.

Durante os Governos Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso (desde o início da década de 1990, prolongando-se até 2002), aconteceu a desindustrialização do Brasil, o que se tornou mais contundente depois da substituição de Guido Mantega por Joaquim Levy, negativamente influenciado por Michel Temer, cujo desacerto administrativo e econômico-fiscal tem-se prolongado durante o Governo Bolsonaro que nomeou o mesmo Joaquim Levy para a presidência do BNDES e, em seguida, arrependeu-se.

ALGUNS DETALHES SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO

Segundo os livros de História do Brasil, durante o Brasil Colônia, era proibida a industrialização do Brasil para que a elite brasileira fosse obrigada a importar o produzido em Portugal e, através deste, o produzido nos demais países europeus. Por isso, os ingleses apoiaram a falsa Independência do Brasil, com o intuito de tirar de Portugal a condição de entreposto que tudo aquilo que era vendido aos brasileiros. Ficamos sob Regime Neocolonialista Inglês até a Segunda Guerra Mundial, quando os in faliram. Assumiu o posto deixado pela Inglaterra os Estados Unidos da América, governado por Franklin Roosevelt desde 1933.

Somente a partir de 1930, Getúlio Vargas passou a industrializar o Brasil. Construiu 150 mil quilômetros de estradas porque a navegação de cabotagem estava sob o domínio inglês, assim como o setor ferroviário.

Então, a partir de Juscelino Kubistchek, o empresariado brasileiro e estrangeiro foi incentivado a produzir tudo aquilo que resultasse na substituição de nossas importações, o que se tornou o maior objetivo econômico durante os Governos Militares.

Até ali o Brasil era mero exportador de café, açúcar e álcool, que representavam 80 % de nossas exportações. Essas exportações eram controladas pelo IBC - Instituto Brasileiro do Café e pelo IAA - Instituto do Açúcar e do Álcool. Essas exportações não mais eram suficientes para o pagamento das nossas importações. Naquela mesma época era importante a produção de algodão e as indústrias de tecidos eram as mais importantes nos grandes centros consumidores.

O Neocolonialismo inglês sempre foi fato escancarado. A nossa elite a serviço dos ingleses e franceses não deixavam transparecer a nossa condição de pais neocolonizado. A real independência do Brasil só ocorreu quando Getúlio Vargas estatizou as empresas inglesas na década de 1950. Eram empresas produtoras de energia elétrica, do setor ferroviário, principalmente para exportação das matérias-primas utilizadas pelo setor industrial inglês e para exploração do transporte urbano sobre trilhos (bondes e trens para transporte de passageiros).

O auge do Milagre Brasileiro de crescer sem Capital Estrangeiro (captando o dinheiro do Povão) aconteceu durante o Governo Militar mediante a constituição de importantes Empresas Estatais, a exemplo do que fez Getúlio Vargas com a criação da PETROBRÁS.

Na década de 1990, principalmente no Governo FHC aconteceu a Privatização dessas empresas estatais constituídas pelos militares de 1964. Antes foram privatizadas as empresas encampadas pelo BNDES por falta de pagamento dos empréstimos a elas concedidos.

ALGUNS DETALHES SOBRE A DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Por que aconteceu a DESINDUSTRIALIZAÇÃO na década de 1990?

Primeiramente, durante o Governo Collor e também, antes, no Governo Sarney, os economistas acreditavam que os consumidores (o Povo, os trabalhadores) eram os culpados pela alta inflação reinante durante a década de 1980. Para que o consumo fosse reduzido, era preciso causar o desemprego em massa, tese aplicada por Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer, seguidos por Jair Bolsonaro.

Bastou aumentar a taxas de juros sobre os títulos públicos para que os industriais aplicassem os seus exorbitantes lucros (obtidos com a provocada inflação) em títulos públicos. Assim, iniciou-se a chamada de CIRANDA FINANCEIRA. As empresas que ainda tinham significativos estoques, diariamente aumentavam os preços que acordo com a previsão de inflação propagada pelos economistas ortodoxos.

A INFLAÇÃO DE EXPECTATIVAS funcionava como uma espécie de confisco do salário dos trabalhadores, que assim perdiam diariamente o Poder Aquisitivo.

Entretanto, para os sensatos não restava a menor dúvida de que tal afirmação dos economistas ortodoxos era grande mentira (FAKE NEWS). Se eles de fato acreditassem naquilo que diziam, obviamente seriam uns SEM NOÇÃO. Seriam ANALFABETOS FUNCIONAIS que não conseguiam entender os porquês dos fatos ocorridos.

OS CONSUMIDORES SÃO OS CAUSADORES DA INFLAÇÃO

Então, considerando que o Povo (consumidor, trabalhador) era o responsável pela reinante inflação (e não os seus Patrões), aqueles ortodoxos resolveram confiscar a poupança popular, mas deixaram livres desse confisco os incógnitos senhores endinheirados (os patrões) que investiram seu DINHEIRO SUJO (CAIXA DOIS) em Fundos de Investimento com Cotas ao Portador, criados no governo Sarney para que aquele dinheiro informal (obtido por meio da Omissão de Receitas Tributáveis) não fosse transformado em dólares e remetido para Paraísos Fiscais.

A Omissão de Receitas só começou a ser efetivamente combatida a partir de 1978, quando começaram as apurações da contabilização de Recibos Frios e Notas Fiscais Frias nas instituições do sistema financeiro, fiscalizações estas, realizadas pelos auditores do BACEN. Para evitar a emissão dessas Notas Fiscais Frias, no Governo Lula foi criada a NF-e - Nota Fiscal Eletrônica.

Os economistas de Collor de Melo também deixaram de confiscar os bens, direitos e valores daqueles sonegadores de tributos que se escondiam dentro de empresas fantasmas constituídas como OFFSHORE em paraísos fiscais, as quais tinham investimentos no Brasil e ainda são as detentoras da maior parte do Capital Estrangeiro aqui investido.

Antes de Collor, Sarney decretou a moratória da Dívida Externa e foram poucos os estrangeiros que a vieram cobrar, porque de fato os credores eram brasileiros disfarçados como estrangeiros.

Tudo isto significava que o verdadeiro intento dos economistas de plantão era o de acabar com a capacidade aquisitiva (ou o poder de compra) dos consumidores (dos trabalhadores), que inegavelmente eram e ainda são as galinhas dos ovos de ouro do capitalismo. Por falta desses consumidores, muitos industriais reduziram a produção em suas fábricas. Observe que essa história repetiu-se durante o Governo Temer e continua repetindo-se no Governo Bolsonaro.

A VERDADE SOBRE A OCORRÊNCIA DA INFLAÇÃO

Na realidade a inflação (em tese, na teoria e na prática) só existirá se a produção interna num país for inferior às necessidades de consumo popular. Então, se for necessário importar para o consumo popular, como acontece nos Estados Unidos, obviamente o País (qualquer um) vai-se endividar, porque as importações serão sempre maiores que as exportações.

É o que vem acontecendo com os Países Desenvolvidos desde a década de 1980, quando se iniciou o LIBERALISMO ou NEOLIBERALISMO que, transformado numa forma de anarquismo, gerou a crise que o SOX - Sarbanes-Oxley Act norte-americano tentou combater e não conseguiu, razão pela qual acorreu a CRISE MUNDIAL DE 2008, provoca pela especulação imobiliária nos USA / EEUU.

OS SONEGADORES DE TRIBUTOS FINANCIANDO O DÉFICIT ORÇAMENTÁRIO

Não tendo mais como investir na produção para o consumo popular, porque o Povo desempregado não mais tinha dinheiro para comprar, os mais ricos patrões passaram a investir em títulos públicos emitidos para financiamento do DÉFICIT NO ORÇAMENTO NACIONAL, provocado pela falta de Arrecadação Tributária. Esta gerada pelo desemprego em massa, tal como vem ocorrendo a partir de Michel Temer e continua a ocorrer no governo Bolsonaro.

Assim, na nova qualidade de mero rentistas, o empresariado sonegador de tributos continua a investir no financiamento do déficit público, porque o governo vinha pagando altas taxas de juros e correção monetária (extinta a partir de de 1996).

A soma desses dois tipos que remuneração do capital era bem superior que o percentual que poderia ser obtido como lucro proporcionado pela produção industrial, este lucro na condição de rendimento sobre o CAPITAL INVESTIDO na produção de bens de consumo popular.

Então, diante desses fatos, podemos perceber que a verdadeira causadora da inflação na década de 1980 foi a CIRANDA FINANCEIRA ocorrida naquela deplorável época em que predominavam os especuladores em todos os segmentos operacionais ou produtivos, o que continua a ocorrer no mercado brasileiro e internacional até os dias de hoje, com a indispensável participação dos paraísos fiscais, que causaram a falência do Sistema Tributário de todos os Países, principalmente os chamados de desenvolvidos.

OS ECONOMISTAS CONTINUAM A ACHAR QUE OS TRABALHADORES SÃO CULPADOS

Durante o Governo FHC (Fernando Henrique Cardoso) os economistas continuaram a defender a tese de que os consumidores (os trabalhadores) são os causadores da inflação, tal como (repetindo) aconteceu no Governo Temer e continua a acontecer no Governo Bolsonaro.

Como os economistas de plantão no Governo FHC acreditavam que a inflação voltaria se o real desvalorizasse em relação ao dólar, eles fixaram a paridade entre o dólar e o real. Ou seja, cada dólar valia um real.

Em razão dessa bobagem, os industriais exportadores fecharam suas fábricas porque tornou-se mais barato importar os produtos anteriormente fabricados aqui. Acabaram com a política econômica introduzida pelos militares de 1964 que incentivaram a industrialização justamente para que fossem substituídas as importações.

Então, os sonegadores de tributos fizeram sua festa particular, remetendo seu CAIXA DOIS para Paraísos Fiscais por intermédio do Mercado de Taxas Flutuantes, criado no Governo Sarney, logo depois de promulgada a Constituição Federal de 1988. Por sua vez, em contraposição, os consumidores mais ricos passaram a importar todos aqueles megalomaníacos bens supérfluos que eram parte de seus sonhos de consumo.

O BRASIL VIRANDO PAÍS DESENVOLVIDO QUE NADA PRODUZ

Em razão destes dois fatos acima citados, as nossas importações até 2003 eram maiores que as exportações. Como resultado desse déficit na Balança Comercial, o Brasil quebrou, durante o Governo FHC. Por isso, era preciso trazer de volta para o Brasil os dólares do CAIXA DOIS evadido, que foi lavado em paraísos fiscais. Para que esses dólares voltassem, depois de sua reeleição em 1998, em janeiro de 1999 FHC resolveu fazer uma maxidesvalorização do REAL em 100%.

UM INVISÍVEL DESFALQUE NO TESOURO NACIONAL

Ou seja, os sonegadores de tributos que tinham remetido 124 bilhões de reais para o exterior (conforme foi dito pelos investigadores que deram suporte à CPI do Banestado), no dia seguinte à maxidesvalorização do real, aqueles usuários do Mercado de Câmbio de Taxas Flutuantes (que facilitava a Lavagem de Dinheiro) passaram a ter quase R$ 250 bilhões de reais que indiretamente seriam pagos a eles pelo Tesouro Nacional por meio da compra dos dólares (das reservas monetárias) novamente trazidas para o Brasil.

Com base na Teoria Econômica, o Tesouro Nacional foi obrigado a emitir títulos públicos para enxugar o meio circulante para que a inflação galopante não voltasse. Dessa forma, aconteceu um verdadeiro DESFALQUE NO TESOURO NACIONAL, porque os dirigentes do BACEN não eram assim tão burros, a ponto de fazerem tanta besteira na expedição de suas normas cambiais.

AS EXPORTAÇÕES GERANDO RESERVAS MONETÁRIAS

Como os economistas progressistas durante o Governo Lula fizeram o inverso (do que fizeram os arcaicos ortodoxos), geraram empregos e reativaram as empresas privatizadas que tiveram suas atividades encerradas, mediante o financiamento das empresas exportadoras pelo BNDES, com o governo firmando convênios com vários países interessados na nossa produção industrial e, ainda, com o largo financiamento da produção agrícola exportável, o Brasil pagou as dívidas de governos anteriores, junto ao FMI - Fundo Monetário Internacional, chegando ser o 5º maior detentor mundial de RESERVAS MONETÁRIAS.

Foi assim que surgiu um novo problema que a inócua Teoria Econômica não conseguiu e nunca conseguirá resolver. Os exportadores tinham muitas divisas (reservas monetárias) e a venda dessa ENXURRADA DE DÓLARES no Mercado de Câmbio brasileiro passou a valorizar o Real (obviamente desvalorizando o dólar), assim prejudicando os exportadores e voltando a beneficiar os megalomaníacos importadores de bens supérfluos.

Por isso, no Governo Lula foi permitido que os exportadores mantivessem seus dólares depositados no exterior, assim acabando com a pressão (maior oferta de dólares) que gerava a valorização do REAL.

OS DOLEIROS FIZERAM A FESTA COM TANTOS DÓLARES

Embora fosse muito boa para a geração de empregos, tal política monetária foi uma festa para os doleiros. Compravam dólares dos brasileiros no exterior e vendiam esses dólares para aqueles que queriam internacionalizar seu capital (CAIXA DOIS) ou que queriam viajar para o exterior com mais dólares do que o normalmente permitido.

Essa nova economia informal da nossa elite vira- lata (dolarizada) passou a prejudicar o próprio desenvolvimento nacional. Seria melhor deixar que circulassem livremente os reais emitidos para a compra dos dólares dos exportadores. Ou seja, sem a emissão de títulos públicos para enxugar o meio circulante. Mas, essa teoria arcaica (do enxugamento do meio circulante) ninguém quer abandonar.

Eles não conseguem enxergar ou entender que a inflação só existe quando não há produção suficiente para o pleno abastecimento para o consumo popular. Assim sendo, se a iniciativa privada não quer produzir, obviamente o governo precisa estatizar as empresas paralisadas para que o mercado consumidor seja reabastecido.

Se os neoliberais lerem isso, terão chiliques, histerias, faniquitos.

DEFINIÇÕES SOBRE O CONCEITO DE DOENÇA HOLANDESA NA ECONOMIA

Segundo os colaboradores do WIKIPÉDIA, em economia, o termo Doença Holandesa (do inglês Dutch disease) refere-se à relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio do setor manufatureiro.

A abundância de recursos naturais gera vantagens comparativas para o país que os possui, levando-o a se especializar na produção desses bens [primários] e a não se industrializar ou mesmo a se desindustrializar - o que, a longo prazo, inibe o processo de desenvolvimento econômico.

A expressão "doença holandesa" foi inspirada em eventos dos anos 1960, quando uma escalada dos preços do gás [natural] teve como consequência um aumento substancial das receitas de exportação dos Países Baixos (HOLANDA = Nederlândia = Neerlândia = Nederland) e a valorização do florim (moeda local daquela época).

A valorização cambial acabou por derrubar as exportações dos demais produtos neerlandeses [holandeses], cujos preços se tornaram menos competitivos internacionalmente, na década seguinte. Assim, um aumento de receita decorrente da exportação de matérias primas pode prejudicar as exportações de bens manufaturados de um país, levando eventualmente ao declínio da indústria, dado que a valorização cambial pode tornar o setor manufatureiro menos competitivo externamente

 É difícil, porém, dizer exatamente quando a doença holandesa é de fato a causa do declínio do setor manufatureiro, pois há outros fatores a considerar, além da taxa de câmbio - embora esta possa ter um impacto importante sobre a competitividade-preço.

Além das variações da taxa de câmbio, outros fatores, como o custo da mão de obra e o custo do capital, devem ser considerados. Embora seja mais comumente usado em referência à descoberta de recursos naturais, como petróleo e gás natural, a doença holandesa pode também se referir a "qualquer desenvolvimento que resulte em um grande fluxo de entrada de moeda estrangeira, incluindo aumentos repentinos de preços dos recursos naturais, ajuda externa ou volumosos investimentos estrangeiros"

A DOENÇA HOLANDESA E A DOENÇA CUSTOS

Por Luiz Carlos Bresser-Pereira - Emérito Professor da FGV - Fundação Getúlio Vargas. Trata-se de antigo Ministrro brasileiro que idealizou o chamado de Plano Bresser que gerou milhões de causas judiciais em favor de trabalhadores como sempre prejudicados por governantes e outros políticos que se destacam como falsos representantes do Povo, os quais são os eternos defensores dos interesses escravocratas de inescrupulosos patrões.

Neutralizar a apreciação cambial via tarifas foi vital para muitos países.

Enquanto o governo brasileiro se dispõe a abrir unilateralmente a economia para deixar a indústria com uma desvantagem competitiva ainda maior do que ela já é, David Kupfer, provavelmente o melhor economista brasileiro na questão industrial, escreveu no Jornal Valor Econômico de 14/10/2019 um excelente artigo no qual ele nos fala das duas doenças da indústria brasileira: a doença holandesa e a doença de custos.

Ele mostra que no último ciclo de crescimento da economia brasileira (2004-2010) houve “um nítido descolamento entre as trajetórias percorridas pela economia e pelo setor industrial”.

De fato, a indústria se beneficiou do aumento da demanda interna causada pelo boom de commodities e, nos três primeiros anos (2004-2006), beneficiou-se também da moeda desvalorizada pela crise financeira de 2002 (no governo FHC).

Nos quatro anos seguintes, porém, ocorreu um ciclo vicioso de fragilização da indústria manufatureira caracterizado por baixa taxa de investimento no setor e "um hiato crescente" de (uma interrupção do crescimento da) produtividade. E, a partir de 2011, enquanto o crescimento da economia diminuiu, teve início uma segunda grande onda de desindustrialização (a primeira ocorreu na primeira metade dos anos 1990 [durante os Governos Collor, Itamar e FHC], a partir da abertura comercial).

Por que a economia quase parou de investir a partir de 2007 e a produtividade da indústria caiu?

David Kupfer explica o problema com “a adoção pelas empresas de estratégias minimizadoras de investimento”. [Isto acontece] quando a demanda cresce [e] elas fazem pequenos investimentos para aproveitar os ativos existentes ao invés de investir em expansão de capacidade. Assim, como os custos de produção não diminuem, surge a doença de custos; a indústria brasileira se atrasa no plano tecnológico e perde competitividade.

Mas, por que adotam uma estratégia minimizadora de investimento?

Porque as empresas, corretamente, entendem que as oportunidades de investimento que surgiram com a expansão da economia poderão desaparecer, não apenas porque o ciclo de expansão pode ser curto, mas também porque, dada a doença holandesa não neutralizada e as entradas de capitais atraídos por juros altos, a taxa de câmbio poderá voltar a se apreciar [o real valorizar] a qualquer momento e as empresas incorrerão em perda de competitividade econômica. [Falta de competitividade no mercado internacional] aquela decorrente da apreciação cambial [valorização do real].

Foi o que ocorreu com a indústria brasileira entre 2011 e 2014 enquanto a taxa de câmbio permanecia absurdamente apreciada [o real muito valorizado], a preços, de hoje, em torno de R$ 2,50 por dólar.

Em 2014, caíram os preços das commodities [mercadorias e matérias-primas vendidas pelo Brasil] enquanto as empresas industriais, endividadas, sem lucros e sem crédito, pararam de investir, e a crise financeira se desencadeou e se transformou em crise econômica da qual o país ainda não se recuperou, [graças a Michel Temer e ao seu seguidor, Jair Bolsonaro].

Em consequência da queda do preço das commodities, a doença holandesa tornou-se menos grave; ao mesmo tempo, com a econômica, os juros baixaram. Os dois fatos contribuíram para que, depois da depreciação [das commodities] a taxa de câmbio não voltasse a se apreciar [desvalorizando o Dólar] e a taxa de câmbio se mantivesse competitiva flutuando em torno de R$ 4 por dólar.

Mas, dada a persistência da quase-recessão e a insegurança econômica reinante, as empresas não voltaram a investir.

NOTA DO COSIFE:

Mediante pesquisa junto a pequenos e médios empresários, tem-se como afirmar que muitos desses empresários, principalmente os bolsonaristas, dizem que estão esperando o governo dar o chute ou ponta-pé inicial.

Veja em O Estado Empreendedor e a Falta de Iniciativa Privada.

Ao invés [de receberem o apoio e a consequente segurança para investir], [as empresas] estão sendo ameaçadas com maior abertura comercial, a partir do diagnóstico do governo que, dada uma tarifa aduaneira média de 14,5%, a economia brasileira continua “protecionista” [contra as  investidas de dumping dos paraísos fiscais asiáticos, tão como está fazendo TRUMP, conselheiro de Bolsonaro].

Este é um grande engano. Há duas razões não-protecionistas para tarifas elevadas: a condição de indústria infante, bem conhecida de todos e que não se aplica ao Brasil senão marginalmente, e o fato de tarifas neutralizarem a doença holandesa em relação ao mercado interno.

NOTA DO COSIFE:

A mais fácil produção das matérias-primas com alto valor de exportação, desestimula a produção industrial interna. Trabalha-se menos exportando matérias-primas.

Por isso, o baixo valor das matérias-primas no mercado externo, pode estimular a produção industrial interna por meio da agregação de valor a essas  matérias-primas mediante sua industrialização.

Esta segunda condição poucos sabem, mas a neutralização dessa desvantagem competitiva via tarifas foi fundamental para que muitos países, inclusive o Brasil e os Estados Unidos, se industrializassem e se mantivessem industriais.

Se pensarmos nas tarifas sobre bens industriais (mais precisamente, sobre bens e serviços tradable non-commodity) como uma política de neutralização da doença holandesa, estas tarifas deveriam variar para cima e para baixo conforme estiverem os preços internacionais das commodities exportadas pelo país. Agora, por exemplo, quando os preços das commodities estão relativamente baixos, as tarifas de importação poderiam ser baixas; na medida em que eles voltem a crescer, a tarifa seria elevada. Não caso a caso, mas linearmente, para todos os bens e serviços importados não-commodities. Eu sei que nenhum país neutralizou a doença holandesa desta maneira, mas por que não sermos os primeiros?

Este mecanismo neutralizaria a doença holandesa em relação ao mercado interno; em relação às exportações seriam necessários subsídios também variáveis, mas isto não é possível no quadro da OMC. Na verdade, a política mais correta de neutralização da doença holandesa, tanto em relação ao mercado interno quanto ao externo, seria uma retenção variável sobre as exportações de commodities, mas as dificuldades políticas em relação a um imposto dessa natureza são grandes. Já o estabelecimento de tarifas de importação variáveis é algo que o Ministério da Economia poderia adotar e administrar sem grandes dificuldades.

Dessa forma o governo estaria se comprometendo com uma taxa de câmbio real livre de doença holandesa. Uma taxa de câmbio corrigida, consideradas as tarifas, muito mais estável, que terminaria com a grande desvantagem competitiva representada pela doença holandesa e daria às empresas industriais brasileiras muito mais segurança. E assim elas investiriam para o aumento de capacidade, superando também a doença de custos.

"Tarifas de importação variáveis é algo que o governo poderia adotar e administrar sem grandes dificuldades"