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DINHEIRO MAL GASTO

DINHEIRO MAL GASTO

MUROS ALTOS E SEGURANÇA PRIVADA EM CONDOMÍNIOS E RESIDÊNCIAS

São Paulo, 24 de julho de 2003 (Revisado em 16-09-2016)

Referências: Muros altos nas Residências e nos Condomínios Fechados, Empresas de Segurança Privada - Forças Paramilitares. Gastos Públicos e Anões do Orçamento, Déficit Habitacional.

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

Estimativas recentes [em 2003] mostram que o Brasil gasta 12% do PIB - Produto Interno Bruto com segurança. Podemos dizer mais: a maioria dos proprietários de residências de classe média e alta gastou mais tijolos com muros do que com a construção da sua própria casa.

De um lado, o dinheiro gasto com segurança poderia ser utilizado na educação e no lazer com a finalidade de tirar as crianças da rua e de formar os cidadãos do futuro. De outro lado, os tijolos, o cimento, a areia, o ferro e a mão de obra utilizada para construir muros e calçadas poderiam ser usados na construção de casas destinadas à população carente. E provavelmente seria suficiente para resolver o problema do déficit habitacional brasileiro.

Contrariando essa premissa, em algumas cidades a legislação municipal privilegia a construção de muros e calçadas no lugar em que poderiam estar os jardins, que muitas vezes a própria população procura cuidar. E alguns casos, como nos chamados canteiros centrais separadores das duas pistas das avenidas, a vegetação foi substituída por calçadas de cimento, pedra e areia e em algumas foram colocadas lajotas. A principal desculpa é a de que a manutenção dos jardins é muito mais cara. No entanto, a realidade é outra. A vereança, ao formular essas leis está defendendo interesses dos comerciantes de materiais de construção e de empreiteiras de obras públicas.

Parece demagogia, mas o dinheiro mal gasto poderia ser mais bem empregado se fosse administrado de forma preventiva. As classes média e alta preferem gastar com sua própria segurança, em lugar de contribuir para que haja justiça social.

Dizem os políticos que construir escolas não dá voto, opinião essa que é comungada pelos marqueteiros (aquele que se utiliza do marketing de forma oportunista para projetos e interesses pessoais). Vale mais o clientelismo barato e esparso, aquele em que o político pode dar as esmolas de mão em mão ou que elas possam ser obtidas em seu diretório regional.

Muitos desses políticos são fundadores de entidades filantrópicas (que depois foram chamadas de “pilantrópicas”) justamente porque recebiam dinheiro do orçamento nacional para ser utilizado na verdade pelos próprios políticos e não em benefício do povo. Foi o que se verificou no chamado caso dos “anões do orçamento”.

Por seu lado, a extrema-direita, na oposição ao governo federal a partir de 2003, diz que o povo não precisa de esmolas e sim de emprego e salário digno. Porém, foram exatamente esses políticos que instituíram essas vantagens eleitoreiras, principalmente nas regiões mais carentes do país.

Voltando aos sistemas de segurança, podemos observar que nas residências, nas empresas e nos condomínios horizontais ou verticais geralmente não é empregada mão-de-obra, porque os sistemas de segurança são eletrônicos ou obstáculos físicos (muros e grades) produzidos em larga escala e com pouca utilização de trabalhadores.

Essa crescente substituição da mão-de-obra humana pela robótica (mecanização ligada à eletrônica e à informática) tem gerado o elevado nível de desemprego que hoje enfrentamos, não só no Brasil como no mundo inteiro. O desemprego tem dado origem à informalidade e à criminalidade. Não que sejamos contra a evolução científica e tecnológica, mas sim porque ela deveria ser executada sem a dispensa de trabalhadores.

A maior produtividade ainda não está sendo usada em favor dos trabalhadores. Ela está sendo utilizada apenas em proveito da maior rentabilidade dos patrões. Uma das formas de premiar os empregados pela sua produtividade não seria propriamente o aumento de salários, mais sim a redução da carga horária de trabalho. Obviamente que, se o trabalhador fosse induzido a trabalhar mais horas, ele teria um aumento de salário. O que se vê é o contrário. Para reduzir a carga horária, em razão do excesso de produtividade, algumas multinacionais exigem a redução proporcional dos salários de seus empregados. Com a redução de salários, há retração do consumo. Sem consumo, não há produção e sem produção, não há emprego. Não havendo emprego, não há salário e sem salário não a consumo. Sem consumo não há produção.

Tudo está virando uma espécie de moto-contínuo, definido pela física como um sistema cujo funcionamento estaria em contradição com alguns dos princípios da termodinâmica. Seria uma máquina, de qualquer natureza, capaz de funcionar indefinidamente sem despender energia ou transformando em trabalho perpétuo toda a energia inicialmente recebida.

Pergunta-se: De que adianta uma máquina que tem a capacidade de trabalhar indefinidamente sem mão-de-obra e sem combustível, se não há pessoas com emprego e renda para consumir o que ela produz?

Veja o texto A Crise do Desemprego - Estrutural e Conjuntural