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SEGREGAÇÃO E PRECONCEITO SOCIAL

SEGREGAÇÃO E PRECONCEITO SOCIAL

É incrível com que cara-de-pau os profissionais de televisão e os artistas tripudiam a miséria do povo

São Paulo, 21 de abril de 2003 (Revisado em 16-09-2016)

Referências: Carlos Lacerda, discriminação social, Piscinão de Ramos.

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

É incrível com que cara-de-pau os profissionais de televisão e os artistas tripudiam a miséria do povo e tem ainda total apoio deste. Da mesma forma como fazem alguns falsos ricos, ditos emergentes, os artistas, tal como os jogadores de futebol, ficam pelas ruas esnobando com seus carrões, sem se importar que os ladrões e seqüestradores possam confundi-los com os realmente ricos.

O tripudiar citado refere-se ao ato de querer mostrar-se superior a alguém de forma megalomaníaca, humilhando-o, escarnecendo-o, explícita ou implicitamente.

A esnobação dos artistas e dos profissionais de televisão, principalmente na cidade do Rio de Janeiro, é tão grande que, na falta de gente mais importante, os bandidos passaram a assediá-los. Muitos artistas e jogadores de futebol, inclusive de São Paulo, chegaram a dizer em outras palavras que nunca haviam imaginado que pessoas públicas e famosas como eles pudessem ser ameaçadas por bandidos. Esqueceram-se dos ricos e importantes empresários já seqüestrados e dos políticos e juízes assassinados.

Muitos desses artistas já estiveram nos meios de comunicação manifestando seu repúdio aos ataques dos quais foram vítimas no Rio de Janeiro e expressando a vontade de abandonar a “cidade maravilhosa”, embora o bairrismo e o preconceito os deixem em dúvida quanto à decisão a tomar.

Aliás, diga-se a bem da verdade que os cariocas da zona sul são bastante bairristas (não só os “cariocas da gema” como também os que lá se instalaram e os que se dizem cariocas). Para quem não sabe, bairrista é aquela pessoa que só considera como importante o lugar onde vive ou sempre viveu e hostiliza ou menospreza tudo que se refere aos demais. E ninguém é melhor para dizer isso do que aquele que viveu naquela “cidade maravilhosa” por quase trinta anos e tanto residiu (ou melhor, “se escondeu”) no subúrbio, como morou (ou melhor, “viveu”) na zona sul.

O bairrismo dos cariocas é bastante antigo, porém parece que tudo se acentuou com o generalizado trauma psicológico causado pela transferência da Capital Federal para Brasília em 1960.

Em razão da perda do status de ser o Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro foi transformada em Estado Guanabara por mais puro preconceito em relação ao vizinho Estado do Rio de Janeiro, com o qual depois foi obrigado a se fundir por absoluta falta de condições de sobrevivência. Grande parte dos trabalhadores do Estado da Guanabara residia em cidades-dormitório limítrofes, situadas no antigo Estado do Rio de Janeiro. Tudo que o Estado da Guanabara necessitava para sua sobrevivência vinha do antigo Estado do Rio de Janeiro (água, luz, trabalhadores, produtos agropecuários, combustíveis, entre muitas outras coisas). Até as cidades praianas freqüentadas pelos mais ricos (Cabo Frio e Búzios), assim como as cidades serranas (Petrópolis, Teresópolis e Friburgo), suas preferidas desde o tempo do império, ficavam no antigo Estado do Rio de Janeiro.

Diante dos reclamos dessa elite traumatizada, Carlos Lacerda, que foi o primeiro governador do Estado da Guanabara, reurbanizou toda a zona sul da cidade do Rio de Janeiro, construindo o que foi chamado de “o maior parque urbano do mundo”, o Parque do Flamengo, embora a ONU considere os jardins praianos da cidade de Santos-SP como o maior do mundo (tem praticamente a mesma largura do Aterro do Flamengo e pelo menos o triplo do comprimento). Lacerda também construiu a “obra do século”, que era o novo sistema de abastecimento de água da zona sul carioca. Como conseqüência da reurbanização, Lacerda transferiu os favelados dos morros praianos para os subúrbios cariocas, colocando-os principalmente em um conjunto residencial construído com essa finalidade e que foi batizado com certa propriedade com o nome de Vila Kennedy, pois diziam que seu partido (a UDN - União Democrática Nacional) era financiado pelos ianques.

Anteriormente, os favelados do antigo morro de Santo Antônio (no centro da cidade, onde hoje fica a Catedral e a sede da Petrobrás) tinham sido colocados num conjunto residencial do antigo IAPI (“o amarelinho”), que se encontrava condenado e interditado desde o governo de Getúlio Vargas, esperando as verbas para sua demolição (o conjunto de apartamentos é do tipo Cingapura edificados por Paulo Maluf na cidade de São Paulo, que também deveriam ser condenados por absoluta falta de condições de uso). Hoje o antigo Conjunto Residencial dos Industriários (IAPI - incorporado pelo INSS) faz parte do conglomerado de favelas do bairro de Acari.

Tempos depois, muitos favelados conseguiram voltar à zona sul da “cidade maravilhosa”, apesar das sorrateiras ameaças de morte por afogamento no Rio Guandu. Hoje as favelas da zona sul e do subúrbio são verdadeiros enclaves (território com vida própria e governo próprio encravado em outro). As favelas da Rocinha e do Vidigal, ambas situadas na zona sul e na vizinhança de hotéis cinco estrelas, são tão grandes que se torna impossível as suas respectivas remoções. E por estarem situadas em escarpas de montanha é impossível saneá-las ou urbanizá-las.

Os moradores da zona sul carioca, situada à beira-mar, sempre cultivaram uma violenta segregação social e até hoje chamam de suburbanos os moradores dos bairros distantes das praias oceânicas. O mesmo preconceito sempre foi cultuado pelos moradores da Tijuca, Gávea, Jardim Botânico, Laranjeiras, Flamengo e Botafogo, embora não estejam à beira-mar (as praias de Botafogo e do Flamengo não são consideradas marítimas, porque ficam no interior da Baía de Guanabara, assim como a praia de Ramos e as praias da Ilha do Governador). Ainda existem outras praias ao sudoeste, na Baía de Sepetiba e a oceânica Barra de Guaratiba, que são freqüentadas por suburbanos porque estão a uns 50 ou 60Km de Copacabana.

A construção recente do Piscinão de Ramos, parece ter sido realizada com o intuito de evitar que os “suburbanos” e os moradores das cidades-dormitório próximas (Nova Iguaçu, Nilópolis, São de Meriti e Duque de Caxias) continuassem invadindo as praias das garotas de Ipanema, do Leblon, do Leme, de Copacabana, de São Conrado e da Barra da Tijuca.

O preconceito também se manifesta em relação a outras cidades vizinhas. Dizem os cariocas da zona sul que o melhor da cidade de Niterói, ex-capital do antigo Estado do Rio de Janeiro, é a vista privilegiada que tem da “cidade maravilhosa”. E a cidade de Niterói também tem a vista das montanhas de Petrópolis, Teresópolis e Friburgo ao fundo da Baía de Guanabara, com a anteposta vista da ponte Rio-Niterói e também tem praias oceânicas (Itaipu, Itaipu-açu e outras) e na Baía de Guanabara (Icaraí e outras) e menos miséria do que na cidade do Rio de Janeiro.


O preconceito e a segregação social parecem ter sido os causadores da explosão de pobreza e criminalidade nos bairros periféricos cariocas (ditos suburbanos), que culminou com a dominação imposta pelo crime organizado, cujos narcotraficantes são sustentados principalmente pelas classes média e alta moradoras da zona sul carioca. Note-se que, antes de Carlos Lacerda, somente as já citadas cidades-dormitório limítrofes eram consideradas perigosas por sua criminalidade e hoje não oferecem tanto perigo, quando comparadas com a cidade do Rio de Janeiro.

E é justamente em razão desse preconceito cultivado e dessa segregação social imposta que vemos profissionais de televisão e artistas de momento, cuja fama repentina lhes subiu à cabeça, mesmo nas emissoras consideradas de pequena ou insignificante audiência, esnobando ao relatarem suas viagens ao exterior e seus fins de semana em hotéis de alto luxo no Nordeste Brasileiro ou no Caribe e esnobando também ao falarem de seus carrões importados, de suas mansões, de suas fazendas ou ainda de seus apartamentos dúplex de cobertura.

Apesar de toda essa segregação social e do latente preconceito, os suburbanos cariocas e os demais pobres de todo o Brasil ficam babando em frente dos aparelhos de televisão, cultuando os seus algozes (pessoas cruéis e desumanas, que atormentam as demais com sua megalomania).

E assim, esses pobres telespectadores são doutrinados e induzidos a comprar uma série de produtos de ocasião com eficiência e qualidade duvidosas, enriquecendo mais ainda os seus exploradores (aqueles que sabem enganar de forma manhosa ou maldosamente).

Os cantores de sucesso momentâneo, por exemplo, vendem seus discos por preços exorbitantes, o que incentiva a pirataria, caminho também seguido por outros setores, incluindo o de programas de computador (segmento que explora vilmente os consumidores).

Dessa forma, observa-se que os mais ricos exploram a miséria e a ignorância do povo e este, para conseguir sobreviver, foi obrigado a apelar para a economia informal através da pirataria, do narcotráfico e do comércio de produtos roubados ou contrabandeados.

É incrível a audiência dos programas que se limitam a apresentar os ricos e famosos e a falar de suas vidas, de suas riquezas e das respectivas fofocas. E alguns deles, à noite e na madrugada, dizem-se elitistas.

Diante do exposto, devemos admitir que o carnavalesco Joãozinho Trinta tinha razão quando proferiu a fase filosófica:

- Pobre gosta de ver riqueza; quem gosta de ver pobreza é intelectual!

Isso significa dizer que a população mais humilde, não só do Rio de Janeiro, como também a de São Paulo e de todo o Brasil, voluntária ou involuntariamente, pode estar fomentando e assim perpetuando a segregação racial e o preconceito social dos quais é a própria vítima.



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