início > textos Ano XX - 14 de dezembro de 2018



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MALDITOS BRASILEIROS

Malditos brasileiros

Henry Kissinger dizia: "Não permitiremos um novo Japão ao sul do Equador."

Tradução: não permitiremos que o Brasil se transforme em potência mundial.

Por Mylton Severiano - Revista Caros Amigos - maio de 2002

O Brasil me comove. O Brasil me faz rir e faz chorar. O Brasil me buleversa os sentidos.

No último domingo de abril, o caro amigo Ivaci Matias apresentou no Globo Rural reportagem que traduz bastante destes sentimentos. Começava com imagens do holocausto atômico de Hiroxima e Nagasaki. Um grupo de sobreviventes da bomba de Nagasaki mandou-se para o Brasil, foi parar no planalto catarinense. Ali se estabeleceram, mesclando-se em duas gerações com brasileiros de outras origens. Trouxeram mudas de pereira, agora riqueza da região - a "pêra japonesa", fruto da pereira nipo-brasileira.

O momento encantador da reportagem surge como uma Revelação: um bebê, brasileirinho de cabelos aloirados e olhos puxados, no colo da mãe, descendente de alemães, orgulhosa ao lado do marido nissei. O caçula da colônia é neto do patriarca, que mal fala português; tinha 16 anos em 9 de agosto de 1945, o dia da bomba.

Quando ele e outros sobreviventes vieram para o Brasil, trouxeram também um sino. Estão construindo monumento no alto de uma colina. Ali instalarão o sino, que soará todo dia 9 de agosto, chamando a comunidade à meditação pela paz. E Paz é a tradução do nome japonês daquele novo brasileirinho.

Em 1789, diante da Academia Real de Lisboa, José Bonifácio, Patriarca da Independência, profetizou: o Brasil será "foco de nova civilização". Muito normal que isto incomode potências com aspiração de dominar o resto do mundo. Não é à toa que, ao brandir o velho porrete e conter a ascensão das massas latino-americanas quatro décadas atrás, o Big Brother do norte tenha começado pelo Brasil - o resto dos principais candidatos a potência caiu como que por efeito dominó: Chile, Argentina, Uruguai... A tese dos gringos, que ainda vale: para onde pender o Brasil, penderá a América Latina. Enquanto o pau comia no nosso lombo, o secretário de Estado Henry Kissinger dizia:

"Não permitiremos um novo Japão ao sul do Equador."

Tradução: não permitiremos que o Brasil se transforme em potência mundial.

Que medo têm de nós, não? Malditos brasileiros. Pois, apesar dos predadores, dos rapinantes, dos que preferem Miami a Copacabana, dos que consideram o povo "um detalhe", dos desanimados no Brasil, dos canalhocratas, dos entreguistas, os brasileiros mesmo, brasileiros de tudo quanto é cor, constroem dia após dia esta nação, no amor, "na moral", pela base. Sem pressa avançam, como um rio em meandros

Enquanto a maior parte da grande mídia se pauta por Washington, o povo brasileiro a cada dia, neste exato momento, renova o pacto da brasilidade. Olhe para si. Acreditar no Brasil é acreditar em você. Ninguém pode com um país onde nasce "japonês loiro". E agora temos até santa brasileira, e nascida na Itália, um luxo: Santa Paulina, protetora dos pobres e desvalidos. O Bonifácio estava certo - com seiscentas mil flores de pereira!