início > textos Ano XX - 21 de julho de 2019



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EU PAGO!

EU PAGO!

Quem mandou esses pobres-diabos virem morar num país de vinte mil milionários

por Millor Fernandes - Estado de S. Paulo - junho/2000

Em tempos menos graves do que o que vivemos, pra ser exato em 5 de setembro de 1888, Martin Francisco, filho do ministro da Fazenda de d. Pedro I, e sobrinho de José Bonifácio, irritado com os desmandos tributários da Fazenda Nacional, escreveu seu célebre artigo NÃO PAGO. Cem anos depois, incapacitado para qualquer espécie de irritação, minado, como qualquer cidadão, pela fúria tributária não só da Fazenda, mas de qualquer companhia oficial, oficiosa, estatal, autárquica, departamento público ou prestador de serviços governamental, eu, apavorado com a correção de juro-sobre-juro, a mão única judicial (eles podem tudo; a nós só cabe reclamar em vão), mais confiscos, computadores operados por funcionários incompetentes, eu, repito, simples cidadão sem nenhum direito, tremendo de pavor diante dos atos, leis, exigências e ameaças do Poder, anuncio aqui a todas as autoridades, desde o FhC que compra brinquedinhos pro seu menino brincar na Alemanha, até a velhinha do último guichê de Pirapora:

EU PAGO!

Eu pago a taxa do lixo, mesmo vivendo numa cidade que atualmente pode se orgulhar de ser, sem sombra de comparação, uma das mais sujas do mundo, fétida, depredada e poluída, enquanto seus homens públicos compram palácios inúteis e gastam seu tempo em coquetéis e festinhas, aqui e no exterior (sobretudo em Hanôver, agora com acento circunflexo, até nisso eles mandam) que me matariam de tédio se eu tivesse que freqüentá-los. Mas eu nem estou aí. Vou fazendo meu cooper entre um monte de lixo e uma poça de lama (e entre uma beldade de 13 anos e uma velhinha de 15, ora, ora!) até chegar à central da Comlurb. E pago!

Eu pago o serviço telefônico mais caro do mundo, aferido por um computador comprado metade no Pinel (pelas loucuras que faz\) e metade na Delegacia de Roubos e Furtos (et pour cause). Pago uma assinatura que começa em Cr$ 66,00, acrescida de quase 50% de taxas - o que faz com que, ridiculamente, o mesmo telefonema dado dos Estados Unidos pro Brasil seja muito mais barato do que o dado do Brasil pros Estados Unidos. Pago por esse serviço que pode ser tudo, menos serviço, que enguiça mais do que funciona, que me liga com Manchester quando eu quero falar com Cascadura, e que interfere grosseiramente em minhas conversas mais íntimas com linhas cruzadas que eu nunca sei se são defeito técnico, curiosidade mórbida ou serviço de espionagem português. Pago para ser desatendido por funcionários funcionalmente mentirosos. Pago por esse aparelho ciclotímico, pago por todos os misteriosos impulsos (nome típico para um serviço neurótico) que eu produzo, pelos impulsos que a Telefônica produz por mim, pelos impulsos que o computador multiplica por mim. Eu pago, enfim, num impulso reflexo, me sentindo o homem mais impulsivo do mundo.

Eu pago meu Imposto de Renda, muito maior do que o de qualquer empresário porque oriundo todo do meu trabalho - há mil maneiras de falsificar a contabilidade de uma empresa, nenhum gênio conseguiu descobrir, até hoje, uma maneira de falsificar um ordenado - pago-o em prestações mensais porque não sou idiota (não estou muito seguro disso, verifiquem aí) de aceitar a proposta do governo: pagar tudo de uma vez com 10% de desconto pois a qualquer momento podem me dizer que o acordo não vale. Mas quando, neste último mês, paguei meu imposto com 1 (um!) dia de atraso, o banco (o governo) imediatamente me cobrou 6 (seis!) por cento de juros. Que é que eu posso fazer: queixar-me ao bispo? Mas como, se, hoje-em-dia, nem o próprio bispo tem a quem se queixar! EU PAGO!

Quando o guarda de trânsito na rua me toma a carteira de motorista por motivo que eu não compreendo e ele não precisa explicar e, dias depois, indo eu buscar a carteira na Inspetoria, descubro que ela foi rasgada (!!!) pelas "autoridades" (coisa que, na Inglaterra, faria cair o governo) e ainda me cobra uma Taxa de Serviços de 20 cruzeiros pela nova carteira, serviço que não solicitei nem necessito, eu olho em volta, vejo muita gente fardada me cercando, nenhum advogado, nenhum juiz, sobretudo nenhuma justiça, nenhum tribunal ou autoridade de apelação, e morrendo de medo - pago.

Quando vou guiando pela minha própria rua, da qual saí duas horas antes, e meu carro cai num buraco, aberto nesse espaço de tempo, não sem antes derrubar um poste, acabo num hospital, e apelo para o seguro obrigatório feito numa dessas companhias que seguem uma legislação feita por elas próprias, e não consigo reaver o que me é de direito, que é que posso fazer senão pagar o conserto do carro, a conta do hospital, a reposição do poste derrubado, e pequenas propinas para que as autoridades não me processem? Eu pago.

Quando, com imenso sacrifício, faço uma remessa de dólares para um colégio em Nova York a fim de pagar os estudos de meu filho - estou importando, para o País, know-how altamente especializado, sem nenhum ônus para o governo - apresento, no guichê do Banco Central, a fatura do colégio devidamente autenticada e o funcionário me cobra mais 33% de Imposto, como se eu fosse um importador de uísque e eu, desesperado, lhe mostro que, com os 11% de Imposto de Renda que já pago na fonte, estou pagando 44% de imposto (mais do que qualquer indústria por idênticas remessas), os satrapinhas do Banco Central, afilhados dos grandes sátrapas particulares, aqui e lá fora, dizem que é assim mesmo, que é melhor eu pagar sem bufar. E eu bufo, mas pago.

Quando a Caixa Econômica Federal descobre que o único bem imóvel que comprei em toda minha vida - meu estúdio de trabalho de 120 metros quadrados, na Praça General Osório -, financiado por essa mesma Caixa Econômica, depois de meses de exigências entre as quais a maior não é provar que Cabral inventou o Brasil; e essa mesma Caixa Econômica descobre que a escritura feita por ela me obriga a corrigir seu erro mediante a módica quantia de mais ou menos 20% do valor do imóvel e quando eu, espumando, discuto com alguns procuradores da Caixa e eles, inteiramente sem argumento, me dizem, cinicamente: "Millôr, você tem toda razão; mas não discute com a Caixa, não!

Paga!" E aí qué queu faço? Pago!

Quando o Detran, órgão público 100% privado, me obriga a mudar minha placa de automóvel por 70 cruzeiros e eu digo que na esquina eu compro a placa por 30, e "eles" dizem que tem que ser a deles, e eu imediatamente multiplico 70 por 2 milhões (é mais ou menos esse o número de nossos carros?) e vejo que isso dá 140 milhões de reais e resolvo botar a boca no mundo, lembro que em todos os países do mundo os próprios governos fizeram questão de trazer a público os nomes das pessoas envolvidas nos famosos subornos da Lockheed e aqui o coronel intermediário continuou gordo e feliz até o fim de seus dias, que não foram poucos, eu pago.

Quando, às terças-feiras, a feira livre, esse chandéu chinês (mantido no Rio não pra benefício do povo, como se diz, mas pra enriquecimento de meia dúzia de atravessadores), fecha, com autorização do Estado, a minha porta, sem nenhum respeito por meus direitos de cidadão, eu tenho que parar meu carro a 2 quilômetros de casa e pagar pelo estacionamento, que pensam que eu faço?

Eu pago.

Quando minhas empregadas domésticas - de quem eu pago, paternalisticamente, todas as contribuições para o INSS, vêm me dizer que não conseguem ser atendidas nesse INSS - o sinistro feito Previdência Social - vejo que não nos resta solução, a elas e a mim, senão eu trabalhar mais para pagar, só nos últimos seis meses, a laparatomia de uma, dentadura e os cuidados dentários de outra, o oculista da terceira. Eu pago.

Eu pago. Pago tudo isso e muito mais, que o leitor já sabe e que eu não enumero porque isto é um artigo e não um tratado sobre a desfaçatez social transformada em imposto, apelido da impostura. Eu pago tudo que me mandam pagar, no dia e na hora certa. E pago mais pra não ficar na fila de pagar, pra que o funcionário me passe na frente de um monte de infelizes que não podem pagar a propina de pagar. Eu pago porque, embora seja um trabalhador braçal - nunca tive o prazer de ganhar um tostão sem fazer força, nunca recebi nada que não viesse das minhas religiosas 10 horas de trabalho diárias, trezentos e sessenta e cinco dias por ano! Sou, porém, o chamado trabalhador bem remunerado, aquele que pode almoçar e jantar todos os dias, existe isso sim, embora o pessoal lá no Nordeste vá dizer que eu sou um mentiroso! Eu pago porque posso pagar. Não sou feito essas multidões de miseráveis que são obrigadas a esperar horas e dias em filas imensas sob o sol e sob a chuva, pedindo, implorando, suplicando, requerendo, requerendo, requerendo! o direito natural de não pagar um Estado que não lhes presta serviço.

Mas, também, quem mandou esses cento e sessenta milhões de pobres-diabos virem morar num país de vinte mil milionários?