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MENOS, COLEGAS, MENOS - DIRIGINDO-SE À EXTREMA-DIREITA

MENOS, COLEGAS, MENOS - DIRIGINDO-SE À EXTREMA-DIREITA

MOVIMENTO DA SOCIEDADE CIVIL CONTRA LULA

por Mylton Severiano - Revista Caros Amigos - Correio Eletrônico - 08/03/2003

Impressionante o processo de lixamento a que a mídia gorda submeteu o governo Lula nesses primeiros meses. Nem deram o tradicional Desconto dos Cem Dias (FHC, da França, mandou dizer que só falaria dali a um ano!). Aliás, começaram a lixar bem antes. Notemos que é o primeiro não-doutor a chegar à presidência da República. Teve um monte de advogado, milico, o médico JK. Enfim: um cara do povo chega lá nesses 500 anos de história.

Começaram a lixar há um ano. Lula em alta nas prospecções como futuro candidato. Assassinaram Celso Daniel, prefeito petista de Santo André. Valho-me da Folha de S. Paulo, que leio com mais freqüência. De repente, o caso se transforma: Celso ou pessoas ligadas a ele é que tinham alguma "culpa". As notícias passaram a ter como sobretítulo "O PT sob suspeita".

Bem. Independente do que se apurar sobre o caso, nunca a Folha pôs "Tucanato sob suspeita", ou "PFL sob suspeita", nem "PMDB sob suspeita" etc., nos incontáveis casos de políticos apanhados com a boca na botija.

No auge da crise venezuelana, durante a greve de "rúbios" e patrões (locaute é a palavra, não greve, e na verdade foi sedição contra governo legalmente constituído), Miriam Leitão entrevistou Chávez em Caracas e, em seguida, com colegas da TV Globo no Rio, nosso chanceler Celso Amorim. A um quanto a outro Miriam fez a mesma pergunta, extemporânea: o Brasil, ao vender petróleo à Venezuela, não estava ingerindo indevidamente nos negócios internos do país vizinho, ao "tomar partido de um dos lados"? Chávez conteve-se para não ser indelicado. Amorim foi diplomata.

O que se depreendeu das entrelinhas do noticiário foi que a Petrobrás, caso vendesse gasolina à Venezuela, estava simplesmente fazendo negócio com um país. Que já nos tinha ajudado certa vez, em matéria de petróleo. Mas o que se gastou de tinta e palavrório tentando provar que focinho de porco é tomada!

Um "filósofo" associou o governo Lula a uma espécie de "eixo do mal" sul-americano, pois iria governar associado a Chávez, Fidel Castro e, pasme, às Farc da Colômbia. E um jornal publicou! E no intervalo do primeiro para o segundo turno, Lula praticamente eleito, Bóris Casoy fez-lhe pergunta de semelhante teor sobre as Farc.

Bentratado e Mandachuva

Temos uns 40 milhões de pobres. O governo lança o programa Fome Zero. E os clãs Bentratado e Mandachuva ficam a cobrar que em trinta dias Lula resolva problemas que os próprios Bentratado e Mandachuva criaram em séculos.

Lembrem como foi a campanha eleitoral. A Bolsa despencava? "Efeito Lula". Lula subia nas pesquisas, dólar disparava. Os Bentratado e os Mandachuva mandavam dinheiro pra fora. Belo amor pelo Brasil!

Como nós da mídia gorda ou magra sabemos, tem gente que não suporta povo. Ainda mais na presidência. Autoridade de segundo escalão do atual governo contou-nos informalmente, em reunião social, faz pouco tempo. Essa autoridade é "gente fina" de esquerda, mora em bairro "nobre" de São Paulo. Na última década do século recém-findo, certo Mandachuva, ou Bentratado, ou Bentratado Mandachuva, que morava em apartamento abaixo do dele, soube que o candidato Lula havia jantado no apartamento de cima, o dele. O sujeito de baixo deixou o apartamento imediatamente, e pôs à venda. Não suportava a idéia de que os dejetos de Lula tivessem passado pelos mesmos condutos que os dejetos dele. Que tarado, não?

Você acha que um Mandachuva ou Bentratado moveria uma palha pelo Fome Zero? Entre eles há tipos capazes de revistar operário na saída e demitir "por justa causa" quem ia levando do refeitório pãezinhos que sobraram do almoço. Também não vamos generalizar, que tem muito Bentratado e muito Mandachuva polido, com quem se pode tratar.

Em meio século como observador das coisas da política, quatro quintos desse tempo profissionalmente, só vi igual má vontade, ou até perseguição desleal com um presidente, quando levaram Getúlio ao suicídio em 1954 e, dez anos depois, quando levaram Jango ao exílio.

Via brasileira

O que nos parece é que os Bentratado e os Mandachuva de sempre ainda são uns desanimados do Brasil. A mídia gorda espelha isto. Ora, comer é direito básico. Educação vem depois. Não se aprende nada de barriga vazia, a não ser buscar comida a qualquer preço. Fosse a mídia mais compassiva, entraria de sola no Fome Zero. Até por sua própria sobrevivência.

Tem outro jeito? A via chinesa, por exemplo. Mao, camponês, liderou uma revolução à frente de seu exército de camponeses. Pastou duas décadas de lutas, num país que vivia sob ingerência ora de ingleses, ora de japoneses, russos, americanos, casa da mãe-joana.

Milhões morreram nessas lutas. Houve lances inimagináveis para nós: a caçada a centenas de milhares de cachorros, "bocas inúteis"; a recomendação governamental de que "raspassem" a mesa depois do almoço e fizessem bolinhos no jantar; a xenofobia da Revolução Cultural, que bania até violino, por ser "europeu". Mas, em duas gerações, a China zerou a fome. Valorizou a cultura popular (milenar), sem abdicar da alta tecnologia. Sabe fazer "a bomba", satélite e outros sofisticados equipamentos.

Aqui, em democracia, também podemos zerar a fome e nos desenvolvermos, quem sabe em menos tempo. Mas é preciso elevar o procedimento, gente! Afinal, a barca é a mesma, a nossa. Não será com picuinhas e má vontade explícita ou camuflada que vamos ajudar a construir um novo Brasil.