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OS PRIMEIROS DECEPCIONADOS COM O GOVERNO LULA

OS PRIMEIROS DECEPCIONADOS COM O GOVERNO LULA

EVITANDO MUDANÇAS RADICIAS

por Renato Pompeu - Revista Caros Amigos - Correio eletrônico - 07/02/2003

Setores do próprio PT foram os primeiros a se decepcionarem com as medidas iniciais do governo do presidente Lula. De fato, a política econômica, por enquanto, em nada se alterou em relação à de Fernando Henrique Cardoso e do ex-ministro Pedro Malan. É claro que isso decepciona a milhões de eleitores que queriam mudanças, e os primeiros a se queixarem são parlamentares petistas. Não deixa de ser uma ironia do destino.

O presidente do PT, José Genoíno, tem dito que esses parlamentares não levam em conta que "o PT não conquistou o poder, conquistou apenas o governo", e que, realisticamente, não existe outra forma de atuar que não a que tem sido executada. E se repete, agora dentro do PT, a situação que antes atingia todo o partido: os que estão no governo acusam a oposição interna de não ter propostas concretas a apresentar, e dizem que os oposicionistas apenas enchem os ouvidos de todos com suas críticas e lamentações.

A verdade, como eu já disse num texto publicado pela revista Veja em pleno regime militar, há bem mais de vinte anos, é que, no Brasil, a direita é mais forte que a esquerda, pois tem quase cinco séculos de domínio sobre o País e organizou as estruturas da Nação de um modo difícil de desatar. De seu lado, a esquerda, que teve pouco acesso ao poder, não tem conhecimento aprofundado sobre o País, nunca teve um estado-maior adequado e também nunca teve uma estratégia real de tomada do poder e nem um programa efetivo de transformação da sociedade. O que existe, entre a esquerda organizada partidariamente, são pequenos grupos sem conhecimento concreto da situação das massas e da inserção do Brasil no sistema internacional. (O MST parece uma exceção, mas não é um partido, embora eu o veja como a força mais avançada da sociedade brasileira.)

Daí parece que, quando a esquerda chega ao poder, a única coisa que pode fazer é cumprir o programa da direita com mais legitimidade do que a própria direita. Isso eu disse há bem mais de vinte anos e me parece que continua valendo. Ou eu, sendo já sexagenário, estou cego para novas realidades, como o MST? Só o que posso ver é que, sem grandes alterações no mundo inteiro, sem a democratização da globalização, o Estado brasileiro continuará sem soberania para dar soluções adequadas aos problemas da população.