início > textos Ano XX - 19 de setembro de 2019



QR - Mobile Link
VIVA A BURGUESIA NACIONAL

VIVA A BURGUESIA NACIONAL

CEDENDO AO NEOCOLONIALISMO PRIVADO IMPOSTO PELAS MULTINACIONAIS

São Paulo, 01/10/2002 (Revisada em 28/01/2019)

Referências: Elite Vira-Lata: Na cúpula da sociedade brasileira, a auto-estima cultural é zero, Fusão e Incorporação de Empresas Familiares, fundir-se às empresas estrangeiras ou solicitar falência, progresso multinacional baseado no empréstimo vil de dinheiro que sai daqui para paraísos fiscais. Produto importado é melhor que o fabricado aqui. Exportar matérias primas e importar produtos industrializados, criar empregos no exterior para os descendentes dos nossos antepassados. Capitalismo telegangue financeiro, privatizador do Estado.

A falta de confiança em si tomou conta da libido desvitalizada das elites intelectuais e empresariais do país

Por GILBERTO VASCONCELLOS - Folha de São Paulo, 01/01/99 - é professor de ciências sociais na Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). É autor de "O Príncipe da Moeda" (editora Espaço e Tempo, 1997), entre outros livros.

O retorno, sob o charme da sociologia, das bugigangas internacionais à Dutra coloca, como nunca dantes, o drama existencial do burguês "made in Brazil": fundir-se às empresas estrangeiras ou solicitar falência. Certamente, nenhuma das alternativas - suicídio do "associado" menor ou morte súbita e declarada - deveria agradar ao empresariado local com o mínimo de pudor de classe social ou com a chamada vergonha na cara.

A fé na vocação progressista da burguesia nacional se impõe após o estrago ecológico das multinacionais, tidas e havidas pelos sociólogos desfrutáveis como as locomotivas do desenvolvimento. Esse nefando progresso multinacional, baseado no empréstimo vil de dinheiro que sai daqui, é responsável pela humilhante importação de arroz com feijão, de modo que o povão continua capado e recapado: um país sem agricultura. A própria burguesia agrária é vítima do número espantoso de 500 mil empresas rurais falindo [durante o Governo FHC, no auge do Plano Real, paridade do Real ao Dólar], cujos desempregados engrossam o caldo urbano dos 5 milhões de lúmpens; enfim, no todo, 60 milhões de brasileiros em condições socialmente detritárias.

Essa entropia sociopática se expressa, no plano da cultura, pelo sentimento generalizado de que nada do que é nacional vale a pena - indiferente ou a favor, portanto, da ocupação estrangeira do território. Na cúpula da sociedade brasileira, a auto-estima cultural é zero. Ninguém acredita em ninguém.

É o que se vivencia cotidianamente sob a égide do capitalismo telegangue financeiro, privatizador do Estado, "no state's land". Até mesmo tomar o Estado tornar-se-ia uma aventura inconsequente, porque o Estado sem patrimônio é fraco (além de desmoralizado eticamente) para fazer qualquer coisa de importante na sociedade.

Quanto ao modo de sentir e pensar, a falta de confiança em si tomou conta da libido desvitalizada das elites intelectuais e empresariais do país. O que há, psicologicamente, é só vontade de dependência e submissão, cujo espelho melancólico está na precária topografia do desejo na obra do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, em que a única idéia de potência se desloca para o amor dos EUA, que não lhe seria (por sua simpatia e suas qualidades pessoais) jamais recusado, como advertiu Darcy Ribeiro pouco antes de morrer.

Nesse abstruso reinado da cidadania sem nação, que corresponde à retórica chorona do "tudo pelo social", as vozes da cultura oficial, ou do mercado, deslumbram-se pelos indícios aqui do Primeiro Mundo, pelo acesso a petiscos e bebidas importados, compondo um simulacro ridículo e alienado de quem se considera como o outro, que é amiúde um "cidadão do mundo", entusiasta do "homem em geral". Como se pudesse existir cidadão no mundo que não fosse patriota. Resulta daí que esse narcisismo "frixópi" é o do cidadão desprovido de soberania nacional, portanto culturalmente frustrado com sua petulância cosmopolita -que não consegue, todavia, pensar o mundo.

A pobreza da reflexão filosófica contemporânea sobre o fenômeno nacional é justificada pela preguiça, valendo-se da palavra-talismã "globalização", cuja semântica é uma verdadeira babel do vocábulo impróprio. Alheio ao tempo e ao espaço em que vive, o homem colonial (seja burguês, proletário ou boêmio) não consegue perceber brechas e oportunidades da situação internacional, as quais poderiam dar ensejo político a um experimentalismo nacional revitalizador, sobretudo porque o Hemisfério Norte (EUA e Europa) está enroscado diante dos derradeiros estertores do combustível petróleo.

Daqui a pouco, vai faltar energia no mundo inteiro, e a humanidade terá de resolver a seguinte questão: como sobreviver sem petróleo? Lamentavelmente, o senso comum, idiotizado pela videocracia, acha que energia é petróleo e ponto final, assim como os intelectuais nefelibatas das ciências humanas não atinam para o fato incontestável de que o petróleo está na UTI da história da energia, enredando-se, por conseguinte, na tramóia economicista da "crise financeira internacional".

Os cientistas sociais são intelectualmente limitados porque, em suas análises da realidade, não transcendem o fetichismo da moeda e do dinheiro "papel pintado". Eles não conseguem perceber o âmago da questão contemporânea: estamos diante de uma crise mundial ou de um massacre financeiro dirigido a determinados países do mundo?

Em vez de abordar o percurso da moeda à moeda (que já não é mais símbolo de riqueza concreta), os coleguinhas de ciências sociais deveriam proceder ao inverso: o percurso da natureza à moeda. Os "dados da natureza" em primeiro lugar, como dizia Marx.

O capital à luz do sol. Isso, aliás, foi ensaiado durante a década de 40 por Roger Bastide, o professor hegeliano e gidiano de dona Gilda de Mello e Souza, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Florestan Fernandes e Fernando Henrique Cardoso. Independentemente da dimensão cromática do transe no candomblé, estudada por Bastide e Glauber Rocha (noite ou dia?), a armadilha financeira do poder mundial foi urdida para ocultar a nossos olhos a biosfera dos trópicos, com sol e água.

Do solar de Apipucos, o xará sociólogo, Gilberto Freyre, criador da disciplina "tropicologia", anteviu que a ecologia tropical, neste ocaso do milênio, seria a principal fonte energética da humanidade, o que se torna cada dia mais evidente com o inevitável deslocamento do eixo geopolítico do mundo, do deserto árabe para as florestas tropicais. Isso tudo diante da incontestável decrepitude do combustível petróleo (70% dele na Arábia Saudita) e da escassez mundial de água doce.

Assim, a superação dialética do drama existencial e bélico do petróleo no Oriente Médio far-se-ia pela utilização da biomassa energética dos trópicos, ensejando a bela e inusitada oportunidade de a deusa Minerva alçar vôo na alvorada. Caso contrário, a curto prazo, daremos o adeus definitivo aos ex-capitalistas brasileiros.