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EU, RÉU, CONFESSO: É GOLPISMO

EU, RÉU, CONFESSO: É GOLPISMO

Pelo jornalista Mylton Severiano - Correio Eletrônico nº 213 de 02/08/2005 da Revista Caros Amigos

Tenho sido convidado a atuar em campanhas e programas de partidos (horário eleitoral gratuito) desde que políticos inventaram esse esquema no fim da ditadura. Com colegas e amigos das mais diversas tendências, trabalhamos para agremiações igualmente dos mais diversos matizes, de todo o espectro ideológico: PC do B, PCB, PT, PMDB, PSDB, PTB, PP, PFL e outros menos votados.

Nesses 20 anos, participei de uma centena de missões do gênero: jingles, filmetes, comerciais de rádio e tv, programas, campanhas propriamente ditas. Alguém te pediu alguma nota fiscal? Não? Nem pra mim. Salvo em duas excepcionais ocasiões. E apenas de ínfima parte do todo recebido, certamente para a prestação de contas “pro forma”, invariavelmente aprovadas pela Justiça Eleitoral. Ou seja, o grosso do financiamento de candidatos sai do famoso Caixa 2. Tudo bem, tudo em casa. Esse é o país.

Mas por que abro este jogo nada edificante? Ah, sim.

Bem, primeiro devo dizer, em nome de todos quantos, como eu, detêm mão-de-obra qualificada para campanhas políticas: caso a gente queira jogar limpo, preto no branco, receber tudinho com nota etc. e tal, não conseguiríamos trabalho algum. Segundo, o que querem agora é pegar o PT e o Lula nessa.

A propósito, um lembrete. Aproximam-se novas eleições, e até aqui Lula continua imbatível. Certa mídia gorda e os inimigos do Brasil, internos e externos, estão desesperados. E não nos esqueçamos desta outra jogada: quando Lula ameaçava vencer no início da década de 1990, aprovaram o fim da reeleição. Como ele perdeu em 1994, rapidinho restauraram-na, para reeleger FHC. E isto custou dinheiro, quem não se lembra? Sem falar na farra das privatizações etc. etc.

O esquema de financiamento de partidos políticos, para o qual você nem eu fomos consultados, atende justamente a fins escusos dos verdadeiros donos do poder. É como a proibição de “drogas”: nunca pegam o cabeça, só o “traficante” de morro que não faz “acerto” com a polícia; é como o fisco impossível de obedecer: meus cunhados e irmãos, empresários médios, me disseram certa vez que, se pagam direitinho os impostos, vão à falência, precisam entrar em “acordo” com fiscais, dar um “jeitinho”; é como um monte de regras que te obrigam a obedecer, como cinto de segurança mesmo que você vá a 20 por hora de casa ao supermercado do bairro (um PM ameaçou-me de multa ao surpreender-me desatando o cinto quando estava parado já na fila de um estacionamento); são regras que servem ao velho esquema: para os amigos, tudo; para o resto, a “lei”. Manter o controle do jogo e dos jogadores.

Por que não tratam os políticos de moralizar o esquema de financiamento dos partidos? Porque não convém ao “sistema”. É mais ou menos como o enlameado que te abraça e depois te acusa de também estar sujo.

Você acha que, da regateira Heloísa Helena ao ex-ganiçado ACM Neto (neto! eles se perpetuam!); do furibundo Arthur Virgílio ao metido a intelectual César Maia; do empavonado FHC ao imortal Sarney; do sedoso Gabeira ao megatério Arnaldo Faria de Sá; do estabanado Heráclito Fortes ao “coronel” César Borges: nunca jamais usaram Caixa 2?

Por que os posudos integrantes da atual CPI não investigam tudo nesses últimos vinte anos? Ah, não vão atirar no próprio pé, não é?

Para nós, só nos resta tocar, não apenas um tango argentino como no poema Pneumotórax do esperançado Manuel Bandeira desenganado pelo médico, mas também a marchinha que Gal Costa gravou faz duas décadas:

Onde Está o Dinheiro?

Autor desconhecido, segundo o sistema de busca Google

(Refrão)

Onde está o dinheiro?
O gato comeu, o gato comeu

E ninguém viu
O gato fugiu, o gato fugiu
O seu paradeiro
Está no estrangeiro
Onde está o dinheiro?

Eu vou procurar
E hei de encontrar
E com o dinheiro na mão
Eu compro um vagão
Eu compro a nação
Eu compro até seu coração

(Refrão)

No norte não está
No sul estará
Tem gente que sabe e não diz
Está tudo por um triz
E aí está o xis