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A BOLÍVIA DE HOJE E O BRASIL DE AMANHÃ

A BOLÍVIA DE HOJE E O BRASIL DE AMANHÃ

A MASCARA DAS ESTATÍSTICAS E A FARSA DAS PREVISÕES ECONÔMICAS

São Paulo, 23 de outubro de 2003 (Revisado em 16-09-2016)

Referências:

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

O grande problema boliviano tal como o brasileiro está ligado ao narcotráfico, à miséria reinante e ao baixo nível de emprego nas atividades formais.

É comum na Bolívia o consumo da folha da coca na forma de chá para combater os efeitos da altitude, porque a maior parte dos quase 8 milhões de habitantes vive a mais de 3000 metros.

Tal como no Brasil, a iniciativa privada controlada principalmente pela elite boliviana não tem capacidade para gerar emprego e por isso há a necessidade de estatização da economia, visando principalmente a criação de postos de trabalho e o incremento das atividades econômicas no país.

Só que os dados bolivianos são bem mais alarmantes. Enquanto a renda per capita dos brasileiros está próxima dos US$ 10 diários e é considerada ridícula se comparada com a dos norte-americanos, dos europeus e dos japoneses, a dos bolivianos não chega a US 3 diários, incluída a renda dos mais ricos.

Mas, a atividade informal é proporcionalmente bem maior do que a registrada no Brasil.

Renda per Capita é a Renda Nacional dividida pelo número de habitantes do país. Renda Nacional é a soma das rendas dos residentes num país, durante um ano.

As importações bolivianas são muito pequenas porque sua população é de apenas 4,5% da população brasileira e são muito poucas as pessoas com capacidade econômica e financeira para consumir os produtos vindos do exterior.

Para suas exportações a Bolívia precisa de pelo menos uma saída para os portos do Atlântico ou do Pacífico. A saída para o oeste esbarra numa rixa histórica com o Chile, que através de uma guerra no século XIX ficou com as terras bolivianas do Deserto de Atacama, fechando sua saída para as cidades de Arica e Antofagasta no litoral do Pacífico.

Do lado leste, havia uma promessa de uma ferrovia que vinha de La Paz, passando por Cochabanda, Santa Cruz de la Sierra, Corumbá, Campo Grande, Bauru, São Paulo até o porto de Santos. Porém, a privatização das ferrovias brasileiras parece ter enterrado de vez esse sonho boliviano, tendo em vista que a parte brasileira da ferrovia encontra-se praticamente desativada, com apenas 10% de sua capacidade.

E o presidente boliviano demissionário em 2003 piorou a situação da população mais pobre ao aceitar as propostas norte-americanas de erradicação do cultivo da coca, mediante a sua substituição por outras plantações permitidas.

O Jornal da TV Cultura de São Paulo informou que, para substituição da cultura da coca, foi oferecido aos cocaleiros - plantadores de coca - US$ 2.500,00 e mais uma ajuda de custo de US$ 960,00 anuais, isto é, cerda de US$ 80,00 por mês, o equivalente a um salário mínimo brasileiro.

Depois de alguns meses, efetuadas as contas, os cocaleiros chegaram à conclusão de que ganhavam US$ 30,00 semanais com as plantações da coca e agora estavam ganhando US$ 4,50 semanais para cultivar as plantações consideradas legais.

O problema é o mesmo enfrentado pelo Brasil: Como acabar com o tráfico, se o narcotraficante ganha mais do que ganharia em qualquer outra atividade em que possa trabalhar legalmente? É uma monstruosa inversão de valores.

A maior parte dos usuários de drogas dá mais importância e paga mais aos traficantes do que aos seus empregados. E assim os usuários compram um produto nocivo e sem nenhum controle de qualidade, enquanto que seus empregados diretos devem primar pela qualidade e pela produtividade.

Considerando que o governo boliviano, com respaldo norte-americano, não se dignava a pagar aquilo que os cocaleiros ganhavam antes, os dois grandes grupos de origem indígena, que efetuam as plantações de coca, rebelaram-se e acabaram obrigando o presidente da república a renunciar.

A população boliviana é constituída de aproximadamente 57% de pessoas de origem indígena e 25% de mestiços, que são a parte mais pobre da população. Os demais são de origem européia e se constituem na classe mais rica e dominante, a chamada elite boliviana.

Os revolucionários são partidários do Eje-Pachacuti, responsável pelo movimento, o qual é sustentado pelos plantadores de coca. Nesse ponto, os bolivianos parecem bem mais organizados do que o povo brasileiro.

É interessante salientar que os norte-americanos, assim como os europeus oferecem grandes subsídios à agricultura em seus países.

Por que não fazem o mesmo na Bolívia e na Colômbia?

Essa talvez fosse a forma mais rápida e barata de erradicar a coca e sem a necessidade de guerras ou revoluções e sem altas perdas humanas e materiais. Bastava pagar o preço justo pela comida produzida e pelos minérios extraídos.

Com o passar do tempo os países ricos talvez tivessem que fazer o mesmo em todos os demais e assim seria erradicada não só a coca como também a fome no mundo, sem precisar gastar muito mais dinheiro com as guerras, com revoluções e com regimes ditatoriais.

Agora os bolivianos esperam que o vice-presidente empossado venha resolver o problema dos ganhos dos cocaleiros. Caso o problema não seja resolvido, evidentemente que eles vão voltar ao cultivo da coca.

E o problema brasileiro é praticamente o mesmo, guardadas as suas devidas proporções. De nada adianta criar empregos para que o povo ganhe menos. De nada adianta oferecer esmolas para que o povo mantenha seus filhos nas escolas. Depois desse sistema unificado e totalmente implantado, se o governo deixar de dar as esmolas, o povo fatalmente fará greve retirando seus filhos das escolas.

Como se ouve em “Vozes da Seca”, uma velha canção dos nordestinos de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, apresentada pelo Quinteto Violado em gravação de 1972:

Seu Doutor, uma esmola
para um homem que é são,
ou lhe mata de vergonha
ou vicia o cidadão.

Sempre há o perigo do povo viciar com a esmola e não mais querer trabalhar. Afinal, ganhar pouco sem fazer nada é bem melhor do que ganhar pouco trabalhando como semi-escravo. Ganhar muito na informalidade é bem melhor do que ganhar pouco na economia formal.

E a informalidade é incentivada pelo próprio governo quando faz leis para reduzir os gastos trabalhistas e previdenciários dos patrões.

O Brasil ainda tem máquinas em diversos setores da economia que podem substituir a mão-de-obra humana, mas a Bolívia está bem longe disso.

O sensível avanço do desemprego, da miséria, da criminalidade e da economia informal no Brasil nas últimas décadas é a mais pura demonstração de desgoverno, talvez premeditado, para transformar paulatinamente o povo em escravo. E isso já vem acontecendo na Bolívia há muito mais tempo.

Assim sendo, a Bolívia de hoje, pode ser o Brasil de amanhã, se não forem tomadas medidas drásticas para reativação da economia, para o aumento do emprego formal e para o aumento da média salarial da população, que no ano de 2002, segundo dados oficiais, caiu 14% em relação ao ano anterior.