início > textos Ano XX - 20 de abril de 2019



QR - Mobile Link
PRODUTIVIDADE E RENTABILIDADE

PRODUTIVIDADE E RENTABILIDADE

OBRA ACUSA OS ECONOMISTAS DE IGNORANTES E CHARLATÕES

São Paulo, 17 de abril de 2003 (Revisado em 16-09-2016)

Referências: neoliberalismo e a globalização, a produtividade demitiu trabalhadores e reduziu consumidores, associada à rentabilidade diminuiu a qualidade. A farsa ou a máscara das previsões: "Ciência nascida das múltiplas exigências da utilidade, a economia tornou-se, afinal a ciência do inútil. Sem dúvida, ela ainda impressiona pelo mágico arsenal de teorias e previsões que engendra com (enganosas) aparências científicas ou com (falso) rigor estatístico que erradica a realidade prosaica da vida"

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

PRODUTIVIDADE E QUALIDADE

O neoliberalismo e a globalização nos apresentaram duas palavras-chave que explicam e justificam todos os problemas mundiais ocorridos durante as décadas perdidas de 1970 e 1980 e durante a “década prostituída” de 1990. São elas: produtividade e rentabilidade.

Segundo o Aurélio, tem-se como “neoliberalismo a doutrina, em voga nas últimas décadas do século XX, que favorece uma redução do papel do Estado na esfera econômica e social”. “O neoliberalismo se contrapõe à tendência anterior de aumento da intervenção governamental, em economias capitalistas, como resultado da adoção de políticas sociais de natureza assistencial e de políticas econômicas keynesianas” (relativas ao economista britânico John Maynard Keynes [1883-1946]).

E tem-se como “globalização o processo típico da segunda metade do século XX que conduz a crescente integração das economias e das sociedades dos vários países, especialmente no que toca à produção de mercadorias e serviços, aos mercados financeiros, e à difusão de informações”: “As novas tecnologias de comunicação e de processamento de dados contribuíram enormemente para a globalização”.

O grande problema causado pelo aumento da produtividade foi não ter recompensado os trabalhadores com proporcionais aumentos de salários, principalmente nos países do terceiro mundo. Outro problema enfrentado foi que o aumento da produtividade não foi recompensado com a redução da carga horária de trabalho e isso provocou um grande surto de desemprego.

Para evitar parte desses problemas, em alguns países da Europa a carga horária foi reduzida e hoje não ultrapassa às 36 horas semanais (em outros é de 30 horas semanais), enquanto que no Brasil ela é de 44 horas, sem contarmos que grande parte dos ainda empregados trabalha mais duas horas extras diariamente e ganha salários ridículos, que nunca ultrapassam a 20% (vinte por cento) do que ganha o mesmo tipo de trabalhador nos países industrializados.

O interessante é saber que a rentabilidade não aumentou na mesma proporção da produtividade,. A razão dessa discrepância certamente será porque os executivos e os controladores das empresas passaram a gastar mais e de forma excessivamente nababesca, enquanto que, os salários dos empregados não sofreram acréscimos significativos e na maioria dos casos diminuíram devido a maior oferta de mão-de-obra forçada pelo desemprego.

Mas, também houve outro fator causador da redução da rentabilidade. Foram os estoques encalhados pela falta de compradores, justamente porque estes estavam desempregados. A excessiva oferta e a minguada procura de produtos consumíveis fizeram com que os preços fossem rebaixados, com a conseqüente redução da rentabilidade. Ou seja, de nada adiantou o aumento da produtividade, porque ela demitiu muitos trabalhadores e assim não houve consumidores para as mercadorias produzidas, que ficaram estocadas, ou melhor, encalhadas.

Na verdade, os profissionais que incentivaram e promoveram o aumento da produtividade mediante a utilização da mecanização e da robótica esqueceram que a produção precisa de consumidores. Isto é, esqueceram que a demissão de trabalhadores em larga escala provocada pela introdução desses avanços tecnológicos iria matar a galinha dos ovos de ouro da indústria e do comércio mundial, que é justamente o consumidor.

Na atual situação, no máximo 3% da população mundial tem condições de consumir tudo o que é produzido. Os demais nada consomem além da alimentação básica porque são miseráveis ou porque estão desempregados ou ganham pouco ou ainda porque vivem em regiões onde não há infraestrutura mínima para utilização dos bens fabricados somente para os mais desenvolvidos. E foi justamente esse desnível tecnológico, salarial e de infraestrutura que aumentou a miséria no mundo após a implantação da globalização pelos neoliberais.

E quais foram os grandes artífices do neoliberalismo, da globalização e principalmente da grande febre de produtividade?

Foram os engenheiros e os economistas. Os primeiros, porque produziram as máquinas que substituiriam os trabalhadores e os segundos porque incentivaram a utilização das mesmas como forma de maximizar os ganhos das empresas, mas esqueceram que sem trabalhadores e sem salários dignos não há consumidores.

Lembro-me de uma frase que por volta de 1992 li no jornal O Estado de São Paulo, a qual foi escrita pelo articulista com base no livro do catedrático de economia da Universidade de Toulouse (França), Bernard Maris: Os economistas, como os médicos de Molière, não passam de sábios ignorantes ou, mais precisamente, de lúgubres charlatões (Napoleão Saboya).

E eu ainda diria que economia é uma ciência inexata, cujas teorias tem que ser totalmente refeitas. Ou melhor, economia é a ciência dos sonhos e dos pesadelos: o economista sonha que suas previsões estão certas, mas depois tem o pesadelo de ver que sempre estão erradas.

Leia o texto integral da matéria colocada a seguir e verá que a mesmice é a mesma. Mesmo depois de decorridos 15 anos, nada mudou, a cartilha ultrapassada continua sendo a mesma.


A GRANDE FARSA DAS PREVISÕES OU A MÁSCARA DAS PREVISÕES

OBRA ACUSA OS ECONOMISTAS DE IGNORANTES E CHARLATÕES

Por NAPOLEÃO SABOYA - Jornal O Estado de São Paulo.

PARIS, 1992 - Ciência nascida das múltiplas exigências da utilidade, a economia tornou-se, afinal a ciência do inútil. Sem dúvida, ela ainda impressiona pelo mágico arsenal de teorias e previsões que engendra com (enganosas) aparências científicas ou com (falso) rigor estatístico que erradica a realidade prosaica da vida. No fim das contas, essa literatura só serve para ocultar a dimensão hilariante alcançada pela economia e confundir o bom senso.

Neste final de século, a Economia na verdade se parece cada vez mais com a medicina do Século 18 descrita no melhor teatro da época. Os economistas, por sua vez, como médicos de Molière, não passam de “sábios ignorantes” ou, mais precisamente, de “lúgubres charlatões”. Mas, como os terapeutas de Moliére, os economistas são uns pândegos que podem fazer muito mal, porque impuseram a hegemonia dos algarismos sobre o discurso político.

O que se leu acima não saiu da cabeça de um artista radical em transe. É apenas a idéia central desenvolvida no livro mais rumoroso - e seguramente o único engraçado - publicado na área de Ciências Sociais no presente ano editorial francês (setembro 1990 / junho 1991). Com o título Des économistes au-dessus de tout soupçon ou la grande mascarade dês prédictions (economistas acima de toda suspeita ou a grande farsa das previsões), a obra tem como autor o professor de Economia Bernard Maris, 43 anos, da Universidade de Toulouse, com brilhante doutorado na disciplina.

Espírito provocador, mas que com humor sabe contornar as armadilhas da afetação e da auto-suficiência, Maris se diverte quando alguém toma por “traição” um trabalho que ele encara tão-somente como de “desmistificação“ do saber e da prática em Economia. A imprensa francesa adorou o “massacre devastador” perpetrado por Maris, mas a categoria vitimada, é óbvio, não achou graça no livro. Os economistas de renome na França se negam a comentar a obra, sob o pretexto de que não a leram.

Do massacre, a única personalidade que escapa ilesa - e até glorificada - é lord Keynes, em quem o presidente Reagan, “à sua maneira”, segundo o autor, se inspirou para forjar a chamada Reaganomics, “esse monumento de confusão do pensamento econômico e atestado eloqüente da falência deste, mas que assegurou ao mandatário republicano oito anos de mandato e, aos Estados Unidos, nesse período, o maior crescimento do pós-guerra, pouco importando se o rei dólar teve seus créditos gastos a fundo pelo endividamento colossal.”

Depois de espicaçar dois magos da economia francesa, o ex-presidente Giscard d’Estaing e seu primeiro-ministro na época, Raymond Barre - qualificado pelo mesmo Giscard como o “melhor economista da França” - Bernard Maris afirma que os dois andam mais sóbrios, hoje, no uso do “espalhafatoso economês”.

Conforme o autor, a prodigiosa capacidade dos economistas para se enganar, enganar os outros com manipulações, cometer fantásticos erros de avaliação e de perspectiva, praticar atentados contra o elementar bom senso em previsões, vem de muito longe. A realidade sempre infligiu fragorosas derrotas aos pensadores econômicos. Adam Smíth, Ricardo, Wilfredo Pareto, Karl Marx, entre tantos, amargaram o escárnio e o ridículo por avançar teorias e profecias “furadas”.

Bernard Marís observa que, embora fabricando toneladas de teorias e equações sobre rendimentos crescentes e decrescentes, os mestres da Economia não conseguem fazer fortuna. Somente lord Keynes e quatro outros gatos-pingados do primeiro time obtiveram a graça que deveria estar ao alcance de todos eles: a mágica de ficar rico.

Com apetite de piranha, Bernard Maris não deixa escapar o menor detalhe capaz de contribuir para demonstrar que a economia virou um circo - e os economistas assumiram suas funções no picadeiro. No gênero grotesco, ele narra, por exemplo, a iniciativa tomada em 1987 pela Associação Francesa dos Doutores em Economia de conceder o titulo de Financista do Ano ao presidente da Câmara Sindical dos Corretores da Bolsa. Pouco depois da cerimônia registrou-se um rombo de 600 milhões de francos no caixa da Câmara, provocado por desastradas operações na Bolsa nas vésperas do craque! Economistas e craque não combinam mesmo.

Entre os artífices da calamidade, encontrava-se o financista Michel Aletti que com outros experts, havia, antes, passado “o conto dos aviões fungadores” nas equipes econômicas (incluindo vários economistas formados pela sacrossanta Escola Politécnica) das companhias Total, Aerospatiale e Elf-Aquitaine. Frutos da mais desvairada imaginação, esses aviões uma vez construídos, iriam descobrir petróleo fungando a terra lá do alto... “E as sumidades caíram nesse conto”, martela Marís, com sutil toque de sadismo.

Na sua opinião, ninguém melhor do que o Prêmio Nobel John Kenneth Arrow exprimiu a inutilidade da categoria ao declarar, em 1973, sob o impacto do imprevisto choque do petróleo: “Pedir a um economista para prever o preço da energia no final ano que vem é o mesmo que perguntar a um especialista da evolução qual será a próxima espécie a evoluir.”

Quanto ao Terceiro Mundo, Bernard Maris constata que nos últimos dez anos os economistas tentaram de tudo na área para salvar a situação: política inflacionista, política deflacionista, desvalorização e revalorização da moeda, liberação e controle de preços, contração e expansão da base monetária, idem para os gastos públicos, arrocho e desarrocho nas políticas salarial e fiscal, desencontradas orientações em relação às taxas de juros, etc.

Para o autor, como seus comparsas do mundo industrializado, os economistas do Terceiro Mundo se parecem, “são a cara” dos médicos de Luis XIV, que só dispunham de dois remédios: a purga e a sangria.

Bernard explica:

A purga é a desvalorização. São lavagens que aliviam as contrações, permitem o escoamento e uma melhor circulação dos fluxos. Desvaloriza-se e tudo volta a circular.

A sangria é a contração da base monetária, o saneamento. Bloqueia-se a liquidez, aumentam-se as taxas de juros ou as reservas obrigatórias, diminui-se o crédito e eis então o corpo liberado de suas tensões, febres ou superaquecimentos.

É desesperadora a regularidade dos remédios econômicos: tira-se o sangue, extirpa-se o intestino.