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O IMPASSE DAS COTAÇÕES DO DÓLAR

O IMPASSE DAS COTAÇÕES DO DÓLAR

 

São Paulo, 3 de fevereiro de 2003 (Revisado em 16-09-2016)

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

Referências:

Durante o mês de janeiro de 2003 vimos a continuação da escalada de preços ocorrida no final do governo FHC. E os empresários justificam essa escalada apontando para as cotações do dólar. E foi justamente essa cotação que proporcionou o superávit recorde nas exportações nesse mesmo mês, quando comparada com os mesmos meses de janeiro dos anos anteriores. Esse superávit ficou próximo de um bilhão de dólares e também poderá ocorrer nos meses seguintes, o que fez o governo Lula a divulga-lo com grande euforia.

Obviamente que, se considerarmos que os preços dos produtos de exportação estão proporcionando o aumento da riqueza interna, podemos admitir que nesse ponto os empresários têm razão. Afinal, se queremos chegar ao primeiro mundo, temos que nos adaptar a ele, inclusive em preços.

Por esse mesmo motivo as empresas multinacionais vêm para cá, trazendo as suas linhas de montagens ultrapassadas, dizendo que estão fazendo altos investimentos. Aqui instaladas, podem cobrar preços de primeiro mundo, porque no Brasil existe uma casta que tem recursos suficientes para consumi-los, enquanto que, para maximizar seus lucros, podem pagar salários bem inferiores aos pagos em suas matrizes. Outra razão da vinda das multinacionais é que as linhas de montagem vêm para cada superavaliadas, o que permite deixar os eventuais lucros previamente depositados em paraísos fiscais, devidamente protegidos dos impostos, tanto em seus países de origem como no Brasil, porque aqui o imobilizado superavaliado vai gerar custos fixos bem maiores, que conseqüentemente evitarão os lucros em território brasileiro, apesar dos baixos salários pagos.

A televisão por assinatura no Brasil, cujo preço das mensalidades também é fixado em dólares, é o grande exemplo da existência de uma casta de apenas três milhões de famílias com capacidade econômica para consumir tudo que se produz e que se importa no Brasil. Este é o número estagnado de assinantes, que as empresas de forma alguma conseguem aumentar.

Mas, é na cotação do dólar que também reside o nosso grande problema, porque o aumento das exportações ainda não permitiu o aumento do nível de emprego, demonstrando que as empresas estavam operando com parte de sua capacidade de produção. E mais grave ainda é saber que o aumento das exportações, com o conseqüente aumento da renda nacional, não gerou aumento de salários e tende a não gerar diante dos programas de ajuda às populações carentes, que, com essa característica de esmola, tende a perpetuar a situação reinante de segregação social. Para esse um terço da população brasileira não estão sendo oferecidas alternativas de trabalho e de salário justo para que possam sobreviver sob as suas próprias expensas.

Outro grande problema é que essas populações carentes já se acostumaram a receber as esmolas oferecidas pelos políticos empresários e dificilmente se adaptarão ao trabalho se este lhes for oferecido, mesmo que em condições satisfatórias e devidamente protegido pela legislação trabalhista vigente.

Os empresários brasileiros precisam entender que os seus excelentes ganhos precisam ser repartidos com os trabalhadores, sem o quê, estamos fadados a enfrentar grandes problemas sociais, inclusive com o aumento ainda maior da criminalidade, a ponto de chegarmos a uma situação idêntica a ocorrida na África do Sul e até em determinados guetos de negros nos Estados Unidos da América, onde os brancos não mais conseguem andar nas ruas, principalmente durante a noite. Essa mesma situação já vem acontecendo no Brasil, onde os mais ricos têm que blindar seus carrões, para ficarem livres do assédio dessas populações carentes e da criminalidade francamente emergente.

É justamente essa mesquinhez que nos tem levado paulatinamente a um retrocesso, que nos faz regredir aos tempos em que o Brasil era colônia e em que os empresários e as autoridades constituídas não estavam preocupados em aumentar o consumo interno. Tudo que se produzia era exportado e o que os ricos consumiam era importado. Ou seja, ao povo nada era destinado e a verdadeira força de trabalhado era a escrava. Aliás, naquela época, o gasto mensal com o investimento em um escravo era superior ao salário mínimo de hoje, segundo alguns estudiosos.

Conclusão

A distorção básica ocorrida no Brasil não está na cotação do dólar, que parece justa para o momento atual, visto que é a forma de remuneração que incentiva as exportações e, em tese, gera emprego. O grande problema é o empresariado querer estabelecer o preço em dólares para os seus produtos de consumo interno e querer pagar salários que não condizem com os pagos nos países consumidores dos nossos produtos de exportação.

Esse problema vem sendo observado há muito tempo na cidade de São Paulo, onde os empresários de ônibus quererem cobrar as passagens aos preços de Nova Iorque, enquanto que não querem pagar os mesmos salários percebidos pela mesma classe trabalhadora daquela cidade, cuja população ganha em média dez vezes o que consegue a população paulistana. O pior é que os serviços oferecidos aqui são bem inferiores aos de lá.

A grande invasão e o sucesso dos “perueiros” e dos camelôs, tanto a cidade de São Paulo como na do Rio de Janeiro, deve-se essencialmente aos baixos salários pagos pelas empresas de transporte coletivo e pelos comerciantes estabelecidos, o que estimula o povão ao trabalho autônomo, que lhes permite ganhar mais.

Na cidade de São Vicente, no litoral paulista, os “perueiros” conseguiram quebrar as empresas de ônibus, que desistiram da concessão, porque ofereciam serviços inferiores e cobravam preços superiores, além do que, os ônibus eram muito grandes para trafegar nas apertadas ruas do centro da velha cidade, a mais antiga do Brasil.

O mesmo problema se verifica na cidade de São Paulo, onde os ônibus articulados, em duas ou três partes, não são apropriados para trafegar nas suas ruas e avenidas existentes, tal como aconteceu com os ônibus de dois andares, que eram o grande sonho londrino do ex-prefeito Jânio Quadros.

Para melhor organizar os seus serviços, os “perueiros” de São Vicente constituíram cooperativas de trabalho, cujas regras estabelecidas pela prefeitura no que concerne à segurança, ao conforto dos passageiros e aos horários (inclusive com veículos de plantão circulando durante a madrugada, o que os empresários de ônibus não ofereciam) são seguidas rigorosamente e fiscalizadas.

Melhor ainda, o serviço de “perueiros” de São Vicente emprega número bem maior de trabalhadores do que os empresários de ônibus, o que também já acontece tanto na cidade do Rio de Janeiro como em São Paulo, embora nestas duas últimas o serviço de “peruieiros” não seja tão bem organizado.

É claro que o cooperativismo não é a única solução que se pode encontrar, mas, este é um exemplo do que pode fazer a iniciativa verdadeiramente privada, sobrepondo-se à oligarquia das elites empresariais brasileiras. Esta é a saída básica para o “DESEMPREGO ZERO” e por salários justos, desde que as autoridades constituídas (comandadas pela oligarquia) não fiquem perseguindo o trabalho, a livre iniciativa e a justiça social, contrariando o disposto no artigo 193 da Constituição Federal de 1988.