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A CRISE ECONÔMICA E OS DESVIOS DE CONDUTA

A CRISE ECONÔMICA E OS DESVIOS DE CONDUTA

 

São Paulo, 24 de janeiro de 2003 (Revisado em 16-09-2016)

Referências:

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

O grande problema do Brasil é que nós pagamos preços de primeiro mundo e ganhamos salários de quinto mundo. Tudo privilegia os mais ricos e nada é concedido aos mais pobres, nem o emprego, mesmo que seja por salários vis.

Nas décadas de 1960 e 1970, o indivíduo que não tinha a carteira de trabalho assinada era considerado vadio e podia ser preso por vadiagem. Depois de FHC, haja cadeia para prender mais de um terço da população brasileira. E assim a norma, que vinha sendo esquecida na década de 1980, caiu totalmente em desuso.

Com essa situação, para sobreviver, aos mais pobres só resta tentar subtrair dos mais ricos aquilo que possam encontrar sem a devida guarda ou vigilância.

No interior, principalmente no Nordeste, a criminalidade começa pela retirada fortuita de um pé de mandioca ou de qualquer outra coisa que possa servir de alimento. Muitas vezes, até a água é necessário roubar do açude do fazendeiro (político), que a usa para matar a sede do seu gado ou para irrigar sua plantação ou os jardins de sua mansão de recreação. Este não necessita do açude para abastecer sua residência, sua empresa e sua piscina, porque possui poço artesiano construído com verba fornecida pelo governo federal para a realização de obras contra a seca.

Nas grandes cidades, evidentemente em razão de semelhantes problemas, os famosos trombadinhas atuam pelas ruas subtraindo dinheiro e pertences dos transeuntes. Nas favelas, os desempregados logo são seduzidos pelos narcotraficantes com o pagamento de salários que jamais conseguirão ganhar trabalhando na indústria, no comércio ou em serviços autônomos ou com vínculo empregatício. O pior é que são justamente os mais ricos que alimentam os narcotraficantes e que indiretamente financiam a criminalidade, porque são os maiores consumidores de tóxicos. Os mais pobres também roubam com a finalidade de conseguir recursos para comprar tóxicos.

Daí, para que sejam praticados crimes maiores, muitas vezes vitimados pela ambição comum a quase todos os indivíduos, é uma questão de tempo.

Essa é a forma encontrada pelos mais pobres para sobreviver ao famoso capitalismo selvagem, que se tornou muito mais selvagem depois da globalização promovida pelos neoliberais (nova denominação dada à extrema direita, reacionária à extinção do regime escravocrata e favorável à segregação racional e social - “apartheid”).

Para o aumento da criminalidade também contribui a impunidade, a corrupção e o abandono a que foram relegadas as regiões periféricas das grandes cidades, onde matar e ficar impune são coisas corriqueiras. Geralmente a justiça é feita pelos amigos e parentes dos assassinados, que se utilizam dos mesmos métodos e critérios: olho por olho, dente por dente.

Embora seja quase evidente que a criminalidade reinante esteja diretamente ligada aos problemas econômicos e sociais das classes mais pobres, tem muita gente querendo ligar o fato à crueldade e à loucura. Este foi o um dos temas do programa Fala Que Eu Te Escuto, da Igreja Universal, na Rede Record de Televisão, em janeiro de 2003. Na verdade, talvez seja mais fácil acreditamos na tese de que a criminalidade a a loucura também sejam motivadas pelos problemas econômicos e sociais.

Conclusão: os problemas sociais brasileiros não serão resolvidos sem pleno emprego e salários dignos de países desenvolvidos, adicionados de educação, cultura, saúde, esporte e lazer. E para isso temos que contar com a complacência das elites reacionárias, que devem urgentemente abandonar os seus arraigados preconceitos contra as classes mais pobres da população. Caso contrário, a cada dia que passar, ficará mais evidente a latente guerra civil em pobres e ricos.