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BRASIL NO PRIMEIRO MUNDO

BRASIL NO PRIMEIRO MUNDO

A TENDENCIOSIDADE DO EMPRESARIADO INESCRUPULOSO

São Paulo, 26 de dezembro de 2002 (Revisado em 16-09-2016)

Referências: Ausência da Contabilidade de Custos, Fixação de Preços no Mercado de Consumo Interno, Precificação no Mercado Internacional, Baixos Salários, Importância da Contabilidade, Sonegação Fiscal, Sinais Exteriores de Riqueza.

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

A TENDENCIOSIDADE DO EMPRESARIADO INESCRUPULOSO

É interessante notar como o Brasil tem chegado tão rapidamente ao primeiro mundo. Os produtores de modo geral, tanto da indústria como da agricultura e da pecuária, são os que ditam os preços do comércio e há bastante tempo vêm utilizando como padrão para estabelecer seus custos não o que seria lógico ou científico, mas apenas o que é mais prático e lucrativo.

O lógico ou científico seria utilizar os profissionais de contabilidade para estabelecer o custo real ou custo padrão da produção. Já os economistas preferem abandonar esse método para fixarem como padrão apenas na taxa interna de retorno de um investimento. E estes dois caminhos nos levam a resultados extremamente divergentes. O primeiro, mais lógico, leva-nos a resultados verdadeiros e o segundo, leva-nos a resultados estimados porque não se conhece o verdadeiro custo da produção. O pior é que no segundo não são utilizadas as taxas de retorno de primeiro mundo (por volta de 3 a 5% ao ano), mas, sim as taxas de capitalismo selvagem (de 25 a 100% ao ano). E mesmo com taxas tão altas pode haver prejuízo, porque os custos não são controlados como deveriam ser.

Mas, isso existe porque a maior parte do empresariado brasileiro ainda é do tempo do caderninho de apontamentos e do tempo em que os contratos eram um mero pêlo extraído do bigode ou eram tão rudimentares como o citado.

Completamente perdidos e sem ter a quem recorrer, visto que os contadores são considerados tradicionalmente como meros auxiliares na sonegação de impostos, só restou a esses empresários brasileiros buscar parâmetros para seus custos. E quais são esses parâmetros? São os preços do mercado internacional.

Os empresários da agroindústria canavieira, por exemplo, estabelecem seus preços de venda no mercado interno com base nos preços do mercado internacional. Ou seja, os preços de atacado pagos pelos países desenvolvidos são os preços cobrados do consumidor brasileiro. E nisso, os empresários não levam em conta que o salário médio do brasileiro é um décimo do salário do trabalhador dos países consumidores de nossos produtos de exportação. E assim fazem todos os outros setores produtivos brasileiros (soja, algodão, café, frutas, carnes e tudo mais que se possa exportar). Isto significa menores custos aqui e mais lucros para serem remetidos para o exterior para depois retornarem ao Brasil como capital estrangeiro. Ou melhor, significa maior concentração da renda nas mãos dos mais ricos, porque, como todos sabem, as estatísticas mostrar que apenas 3% da população brasileira declaram renda idêntica as do primeiro mundo.

Porém, se observarmos a quantidade de carros importados circulando pelas cidades brasileiras e pela quantidade de mansões e condomínios fechados existentes, podemos supor que tem muita gente sonegando impostos e exibindo acintosos sinais exteriores de riqueza que somente a fiscalização da Receita Federal não consegue enxergar.

Esse fato também pode ser observado nos preços das lojas de “Shopping Center” e também nos prospectos do Extra Hipermercado, por exemplo. Num dos prospectos de “ofertas” por volta do natal do ano 2002 via-se que os produtos da marca “Mr.Valley” estavam com os seguintes preços: a avelã sem casca a R$ 43,80 o quilo, o pistache e as nozes sem casca a R$ 63,93 o quilo. O leitor menos atento logo diria: claro, esses são produtos importados. Porém, eis os preços dos produtos nacionais: a castanha de caju a R$ 26,60 o quilo, a castanha de caju moída a R$ 23,90 o quilo e banana passa a R$ 12,95 o quilo. E tem mais: o sanduíche do McDonald chega a R$ 24,00 o quilo, enquanto que o consumidor brasileiro reclama dos restaurantes com comida a quilo que cobram mais de R$ 14,00.

Parece óbvio que talvez não houvesse consumidores para esses produtos, se considerarmos que o salário médio do povo brasileiro não chegava a R$ 800,00 por mês e que existem quase 60 milhões ganhando menos de um salário mínimo de R$ 200,00 por mês. Se considerarmos ainda que estão sendo cobrados preços de primeiro mundo e que nos Estados Unidos é considerada miserável a família em que a renda mensal é inferior a US$ 800,00 (cerca de R$ 3.000,00), então a coisa fica pior e nos leva a perguntar: Para quem eles querem vender?

Parece estranho existir grandes redes de supermercados espalhados por todo o Brasil com centenas de lojas monstruosas com estacionamento para milhares de automóveis para vender para no máximo um milhão de famílias. Sim, porque não são mais do que um milhão de famílias (5 milhões de pessoas) que ganham oficialmente salários de primeiro mundo no Brasil (cerca de R$ 10 mil reais por mês). Agora nos vêm outra pergunta: Como conseguem lucrar tanto vendendo tão pouco?

Comparando o Brasil com os Estados Unidos podemos ver que aqui apenas 3% da população (cerca de 5 milhões de pessoas ou 1 milhão de famílias) têm condições de comprar os citados produtos oferecidos nos supermercados, enquanto que nos States 97% da população (cerca de 250 milhões de pessoas ou 60 milhões de famílias) têm condições de comprar todos esses produtos oferecidos aqui.

Essa é a razão porque as margens de lucros lá podem ser bem menores que a dos empresários brasileiros. São menores justamente porque lá existem pelo menos 60 vezes mais consumidores do que no Brasil. Enquanto aqui entra numa loja apenas um consumidor por dia para comprar determinado produto, lá entram pelo menos 30, se considerarmos que o número de lojas lá seja o dobro do que no Brasil e talvez não seja. E por que lá existem tantos consumidores e aqui não? Simplesmente porque lá são pagos salários justos aos trabalhadores, enquanto que aqui são pagos salários dignos de semi-escravos.

Conclusão: De primeiro mundo nós só temos os preços. Os salários são mesmo de quinto mundo.

Os empresários brasileiros ainda raciocinam como os norte-americanos sulistas de antes da Guerra da Secessão (quando os negros foram libertados para que se tornassem consumidores) e como pensavam os nossos antepassados no tempo em que existia o regime escravocrata e que o Brasil produzia apenas para a exportação, sem se importar com o consumo interno.

Segundo Peter Drucker a Europa só se desenvolveu depois que fomentou a distribuição de renda e o consumo interno, tal como fez os Estados Unidos da América, exemplo também seguido pelo Japão. Nós estamos na contramão da história econômica, por isso dificilmente chegaremos a nos engajar na categoria de país de primeiro mundo. Estamos condenados a ser uma África do Sul com violento "apartheid" entre pobres e ricos.