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NATAL DAS QUINQUILHARIAS

NATAL DAS QUINQUILHARIAS

São Paulo, 19 de dezembro de 2002 (Revisado em 16-09-2016)

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

Devido aos altos níveis de desemprego no Brasil e aos baixos salários percebidos pelos que ainda estão trabalhando, não há dinheiro suficiente para que o povo possa comprar para presentear os mesmos produtos que outrora comprava nas vésperas do Natal. Por isso a cada ano que passa as vendas natalinas têm se caracterizado pelo consumo indiscriminado de quinquilharias de baixo valor comercial.

Obviamente que as citadas quinquilharias do tipo das vendidas nas lojas de R$ 1,99 têm baixíssima qualidade e elevados índices de produtividade e de lucratividade. Ou seja, só quem perde é o consumidor. E nem vale a pena reclamar, porque se perde mais tempo e dinheiro do que se gastou na compra realizada.

O detalhe é um só: aquele que vende porcaria, vende uma só vez. E é justamente por isso que as lojas de R$ 1,99 têm fechado as suas portas, assim como fecharam os restaurantes que cobravam menos de R$ 15,00 o quilo da comida.

Os vendedores de quinquilharias geralmente estão no mercado informal, aquele que não paga imposto, não trazendo, portanto, nenhum benefício à economia nacional, incluindo o subemprego que geram e o desemprego gerado em outros setores fabricantes de produtos com melhor qualidade.

De outro lado, essas quinquilharias geralmente são importadas ou mais precisamente contrabandeadas, provocando o fechamento da indústria nacional ou fazendo com que esta, por questão de sobrevivência, passe para a informalidade e pague salários idênticos aos pagos nos países chamados de Tigres Asiáticos, que não passam de US$ 50.00 por mês (cerca de R$ 175,00).

E essa má qualidade observa-se mais comumente nos aparelhos de som importados, que geralmente não duram um terço do tempo que durava um similar nacional (quando existia similar nacional), além do que, quando enguiçam, não têm conserto e, portanto, devem ser jogados no lixo.

Os carros importados são outro exemplo de quinquilharia de má qualidade. O leitor deve estar pensando que sou louco por dizer isso. Mas, veja a lógica. Os carros importados vendidos no Brasil são feitos principalmente para consumo dos norte-americanos e lá, todos sabem, os carros são colocados em um depósito ou “desmanche” a partir de dois anos de uso, embora já existam pobres entre imigrantes e negros para adquirirem esses veículos. No Brasil, quando os carros importados enguiçam, o proprietário megalomaníaco fica meses esperando pela peça de reposição. Usar o carro em viagem é praticamente impossível, dada a falta de oficinas e representantes das marcas estrangeiras no território brasileiro. Embora o estrangeiro tenha custado no mínimo o dobro de um nacional, na hora da venda o proprietário não consegue a metade do preço do nacional com o mesmo tempo de uso.

E o que incentivou a importação dessas quinquilharias?

Foi a manutenção do preço do dólar em patamares muito baixos durante o governo de FHC, principalmente até 1999. Na verdade, o preço ideal para a cotação do dólar é o que se verificou no final do ano 2002. Mas, verificou-se um outro detalhe importante: os empresários brasileiros decididamente não querem vender para seus compatriotas, porque imediatamente à alta do dólar, também aumentaram o preço de seus produtos em moeda nacional e não aumentaram os salários de seus empregados.

Mas, para o governo brasileiro, a manutenção do dólar em preço alto constitui-se num grande problema tendo em vista a herança maldita deixada pela equipe econômica de FHC. O títulos da dívida interna brasileira foram emitidos em dólares para pagamento em moeda nacional, o que tem estimulado à especulação no mercado de moedas estrangeiras. Quando mais alta for a cotação do dólar, maior será o desembolso do governo brasileiro. Se o governo pagar em dólares, caem as reservas e assim ficam prejudicados os acordos firmados com o FMI. Ou seja, o presidente Lula e sua equipe econômica estão perdidos numa densa floresta sem bússola e sem cachorro.