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A PROPAGANDA É A ALMA DO NEGÓCIO

A PROPAGANDA É A ALMA DO NEGÓCIO

São Paulo, 5 de dezembro de 2002 (Revisado em 16-09-2016)

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

As empresas concessionárias responsáveis pela distribuição da energia elétrica no Brasil, em associação, estão fazendo propaganda na televisão. Nela, deixam claro que o problema do déficit energético brasileiro não é culpa delas, meras distribuidoras. A culpa é apenas e unicamente das empresas geradoras de energia hidroelétrica, que são estatais.

Trata-se de propaganda institucional ou crítica à administração de FHC?

Na realidade, está parecendo propaganda em prol da privatização das geradoras.

Porém, será que há razões para quererem a privatização das geradoras?

Parece que não, principalmente depois dos aumentos de preços que lhes foram concedidos a título de recompensa. E um deles foi dado em razão da diminuição do consumo gerada pelo racionamento ocorrido durante o governo FHC. Diante disso, seria uma loucura querer menosprezar o governo que tanto beneficiou os mais poderosos.

Na verdade, os gastos com propaganda desse tipo talvez sejam campanha de alerta à opinião pública contra o novo governo que seria, em tese, favorável a re-estatização.

O interessante é que a estatização do setor elétrico e a conseqüente centralização do controle na ELETROBRÁS (leia-se governo federal) foram efetuadas em razão dos eternos racionamentos existentes nos tempos em que a energia elétrica era gerada por empresas privadas estrangeiras, sem um plano integrado e sem nenhum outro compromisso com o desenvolvimento brasileiro. É fato que durante longo tempo as empresas privadas estrangeiras impediram o Brasil de instalar indústrias, construir grandes edifícios, eletrificar os meios de transporte e as zonas rurais, sem contar com os problemas causados às residências, aos escritórios e aos demais setores produtivos.

Porém, desta vez, o racionamento foi mesmo pela incompetência do governo FHC e também de seus três antecessores (Sarney, Collor e Itamar).

Evidentemente que para transferir novamente esse controle estatal para as mãos das empresas privadas seria necessário convencer a opinião pública. Para isso, foi dito que a estatização efetuada nas décadas de 1950 e 1960 foi um erro porque o Estado não tinha dinheiro para investir e porque o Estado sempre foi mau administrador, o que evidentemente não foi. O período estatal foi justamente o que proporcionou maior desenvolvimento ao Brasil.

E para que fosse manipulada a opinião pública foi necessária muita propaganda, verdadeira lavagem cerebral. E nisso, o governo FHC atuou muito bem, pois conseguiu convencer o povo que os preços diminuiriam com a privatização, porque haveria concorrência entre as empresas. Algum tempo depois, observou-se inversamente o óbvio: não houve concorrência e os preços subiram.

Não houve concorrência em razão da inviabilidade da implantação de novas empresas. E os preços dos serviços subiram por duas razões básicas: a primeira porque as empresas estatais não tinham lucro e por isso podiam cobrar menos; e a segunda porque nas estatais os empregados eram admitidos por concurso público, o que, em tese, impedia o cabide de emprego.

Com a privatização foi automaticamente implantado o cabide de emprego para os correligionários dos políticos favoráveis às privatizações. Todos devem lembrar que as estatais eram administradas por políticos e por ex-ocupantes de cargos públicos e agora podemos observar que as privatizadas continuaram sendo administradas pelos mesmos.

De que forma as privatizadas foram transformadas em cabide de emprego?

Foram demitidos das ex-empresas estatais muitos funcionários de inegável competência para que os seus serviços fossem terceirizados, contratados através de outras empresas privadas. Mas, para serem re-empregados, muitos tiveram que se sujeitar a salários mais baixos em empresas cujos donos são os correligionários ou testas-de-ferro de políticos, de ex-ocupantes de cargos públicos de inegável influência política e de empresários lobistas que financiam campanhas políticas.

Como os poderosos foram beneficiados?

Primeiro por terem recebido o patrimônio público por preços bem inferiores aos que seriam gastos para implantar um sistema novo. Isto é tão verdadeiro que nas áreas de atuação das empresas privatizadas, como já foi dito aqui, não apareceram concorrentes porque o custo de implantação de um novo sistema as tornaria inviáveis diante da concorrente. É o que vem ocorrendo com a Intelig no setor de telecomunicações, que não consegue suportar a concorrência da Embratel, que era a estatal monopolista, única com todo o sistema de telecomunicações implantado.

Sendo assim, podemos concluir que também foi transferido gratuitamente para mãos privadas o monopólio estatal, assim como foram as marcas e patentes, o conceito e a tecnologia administrativa e operacional que as empresas tinham. Ou seja, nada foi cobrado pelo “Fundo de Comércio” (“GOODWILL”), que geralmente é a parte mais valiosa de uma grande empresa.

Tecnicamente, podemos dizer que o “Goodwill” é o item intangível do ativo (bem que não têm natureza física) que representa o prestígio de uma firma ou a probabilidade de seus clientes retornarem em razão dos bons serviços que preste, da qualidade dos bens que produza ou dos bens imobilizados que possua. Normalmente, o valor do “aviamento” ou “fundo de comércio” é o elemento essencial de um estabelecimento ou empresa, o conjunto de seu aparelhamento, de sua freguesia, do seu crédito e de sua reputação, que se constitui num julgamento subjetivo e que geralmente só é lançado nos livros contábeis por ocasião da extinção da firma, por venda ou compra, o que não foi feito por ocasião da venda das estatais brasileiras.