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AS CAUSAS DO DESEMPREGO E DOS SALÁRIOS COM MENOR PODER AQUISITIVO

AS CAUSAS DO DESEMPREGO E DOS SALÁRIOS COM MENOR PODER AQUISITIVO

FOLHA DE SÃO PAULO - OPINIÃO ECONÔMICA - JOÃO SAYAD

São Paulo, maio de 1998 (Revisado em 16-05-2014)

Por João Sayad, economista, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro do Planejamento (governo José Sarney)

ARTIGOS:

POR FAVOR, ESQUEÇAM DA EDUCAÇÃO

São Paulo, segunda, 13 de abril de 1998

Nos Estados Unidos, educação virou parte da ideologia neoliberal. Desemprego e má distribuição de renda são debitados à má qualidade da educação dos americanos.

Na verdade, as estatísticas mostram outra coisa - hoje, os americanos empregados têm nível de educação maior e salário menor.

No Brasil, a mesma coisa acontece desde o governo Collor. A ideologia neoliberal adota o mesmo discurso: a função mais importante do governo é garantir igual oportunidade de educação para todos.

As estatísticas mostram o mesmo resultado americano: os novos empregos criados no setor de serviços empregam pessoas com nível maior de educação e menores salários.

Sérgio Buarque de Holanda, no "Raízes do Brasil", apresenta argumento semelhante. Critica os "pedagogos da prosperidade e a miragem da alfabetização do povo", apresentados como condição necessária de progresso e prosperidade para o Brasil.

Hoje, gostaria de fazer um pedido.

O governo tem longa agenda de tarefas para este e para o próximo mandato: privatizações e mais privatizações, enxugamento do setor público, reforma da previdência para diminuir gastos com aposentadorias, questão cambial e exportações. É uma agenda grande até para dois mandatos.

Assim sendo, pediria que deixasse de lado a questão da educação. Não é assunto que aumente produtividade, exportações ou reduza gasto público. Vamos deixar o assunto para tempos menos cruéis.

Educação é questão muito importante e complexa para fazer parte dos programas de "ajuste estrutural" do Consenso de Washington ou de empréstimos do Banco Mundial.

O objetivo da educação de qualquer nível não é aumentar emprego, melhorar distribuição de renda, aumentar exportações ou qualquer outra coisa desse gênero.

Educação tem como objetivo transmitir valores, conhecimentos e cultura às próximas gerações que vão compor este país.

Tive a oportunidade de perguntar várias vezes às autoridades do governo Collor, quando defendiam a educação, o que gostariam de "ensinar" às novas gerações.

Nunca ouvi respostas satisfatórias.

Educação é tratada como custo por aluno, vinculação de receita, escola privada versus escola pública, ensino primário versus ensino superior.

Deveríamos ensinar, como nas universidades americanas, um curso básico de civilização ocidental (de Homero à literatura contemporânea, passando por Dante, Camões, Sartre, Hemingway, e filósofos como Platão, Maquiavel, Santo Agostinho, o Iluminismo, Marx)? Ou será que somos muito pobres para ensinar "essas coisas"?

Nos Estados Unidos não há nenhuma escola de qualidade que seja privada. Pertencem a fundações privadas, mas não têm fim lucrativo. Vivem de bolsas para alunos e para pesquisa dadas por outras organizações públicas.

No Brasil, muitas universidades privadas são extremamente lucrativas, verdadeiros "modos de acumulação" e estão associadas aos políticos que têm vencido as últimas eleições desde 1990.

Recentemente têm contratado os professores mal pagos das universidades públicas, obtendo um bom lucro. Ficam com a grife dos professores e pesquisadores sérios e de boa reputação sem ter fornecido o ambiente onde esses professores se formaram, sem ter pago os salários desses professores enquanto estudavam e sem ter pago as pesquisas que fizeram até agora. Como se explorassem poços de petróleo descobertos pela Petrobrás.

Enquanto isso, governos e lideranças brasileiras passam a se preocupar com a "riqueza" dos alunos das escolas públicas. Que mentira! Ninguém provou que sejam mais ricos do que os de outras universidades, nem a pesquisa da Folha nem ninguém. Mas nos tempos de hoje, isso não tem a menor importância.

Nos Estados Unidos, por muito tempo, alunos brancos e negros eram transportados em ônibus públicos entre diferentes escolas para garantir aos negros o convívio com os alunos brancos e vice-versa.

Educação se faz com professores, livros e colegas. Se existem poucos pobres nas escolas públicas, vamos arranjar vagas para que os pobres possam usufruir do convívio com alunos que talvez sejam mais ilustrados.

Educação não é assunto para os dias de hoje. Só se pode falar em educação quando se sabe o que ensinar, quando tivermos um ou muitos projetos para o país.

A Universidade de São Paulo foi fundada num tempo assim e por pessoas que se preocupavam com o país que queriam para si e para seus filhos. A Universidade de Campinas e a Universidade de Brasília também surgiram de projetos educacionais, de sonhos de uma sociedade diferente.

Atualmente, temos apenas um conjunto mal costurado de ideologias sobre produtividade, concorrência e outras coisas irrelevantes que chamamos de modernidade.

As universidades federais estão em greve por questão de salários. Temos perdido todos os debates e todas as questões. Não parece muito pedir que a questão da educação e da universidade seja deixada de lado na agenda congestionada do governo. Basta manter os salários reais para que ela não desapareça, enquanto esperamos tempos melhores para discutir seus destino.

O pedido é justo. As universidades brasileiras têm prestado bom serviço, formando bons professores, bons alunos e mantido o Brasil pelo menos atualizado com o que se passa no mundo em letras, artes e ciências. Faz o papel de uma grande tomada que nos mantém ligados à civilização. Já é uma bela tarefa. Deveríamos deixá-la em paz.

PRIMEIRO DE MAIO

Folha de São Paulo, segunda, 4 de maio de 1998

Antigamente, todas as famílias tinham assuntos tabus, coisas que não podiam ser ditas na frente das crianças. O tio mais moço que fugiu com a mulher do amigo, o primo com escolha sexual heterodoxa, a origem do patrimônio do bisavô. Em casa de enforcado não se fala de corda.

Assuntos interditados são eleitos como os mais importantes, porque não podem ser ditos. São metafísicos, não-científicos, mas os únicos que interessam.

Foi o que aconteceu com o desemprego. O governo passou a afirmar que não existe, se existe, não é grave, se é grave, é igual ao do mundo inteiro, se é igual ao do mundo inteiro, quem somos nós para resolver?

O governo tem razão.

Logicamente, o desemprego não existe.

Se existissem pessoas que podem trabalhar e que não trabalham, tudo perderia sentido: por que "economizar" se sobra mão-de-obra?

Por que fazer a reforma administrativa para liberar mão-de-obra?

Por que "poupar", isto é, economizar alguma coisa se ela pode ser produzida pelo desempregado?

Por que aumentar a produtividade de qualquer coisa, se o aumento de produtividade vaza e se desperdiça em desemprego?

Por que reformar a Previdência, para que as pessoas se aposentem mais tarde se já existem pessoas sem o que fazer?

Nada disso faria sentido, se existisse desemprego.

E essas pessoas que conhecemos, os moços que vemos nas ruas vendendo Mentex nos sinais de trânsito, os brasileiros que vão para o Sul, voltam para o Nordeste, os que fazem fila nos gabinetes dos políticos para pedir emprego, os "curriculum vitae" que os Correios despejam aos montes nas mesas dos diretores das empresas, quem são essas pessoas?

No início do século, eram chamados de vagabundos. Depois foram promovidos e, até o final dos anos 70, foram chamados de desempregados.

Eram desempregados porque respondiam as pesquisas sobre emprego dizendo que já tiveram emprego formal, que procuraram emprego na semana passada.

Naquela época, se fossem muitos, o governo ficava preocupado, abaixaria as taxas de juros, ou definiria um programa de gastos públicos ou redução de impostos até que fossem contratados. Poderiam até ser contratados para abrir buracos enquanto outros tapassem buracos como sugeriu Keynes.

Hoje em dia, não é mais assim. Somam-se todos os que respondem sim às perguntas do questionário. Se forem muito poucos, o Banco Central americano fica preocupado com a inflação, aumenta a taxa de juros e derruba a Bolsa de Valores de Nova York.

Entram menos dólares no Brasil, que também aumenta a taxa de juros até que exista um bom número deles de novo.

Portanto, estes tipos que procuram emprego e não acham são uma espécie de âncora antiinflacionária e não podem ser considerados um problema.

Quanto mais deles houver, menos inflação.

Além disso, o pessoal que não trabalha forma um conjunto heterogêneo. Não podemos somá-los. Não se somam variáveis de grandeza diferentes, maçãs com bananas e litros de água.
Entre os que não trabalham, existem pessoas que já não servem para mais nada. São da classe média, boa formação educacional, mais de 40 anos, casados, com filhos.

Se fossem contratados, custariam muito caro e não fariam nada melhor ou mais rápido do que um rapazinho ambicioso que acaba de sair da faculdade. Precisa se converter em empresário -não sei quem vai comprar o que ele produzir, mas este já é outro problema. Desempregado não é.

Existe outro tipo de desocupado. São homens e mulheres de todas as idades que pertencem à classe de renda mais baixa. Têm nível educacional baixo e realizavam tarefas que iam desde o trabalho braçal até o controle e operação de máquinas como tornos, fresadeiras, escavadeiras etc.

Hoje em dia, essas máquinas requerem menos operadores, porque são controladas e até operadas por computador. Os que realizavam trabalhos braçais podem achar emprego, mas como existem tantos deste tipo, só vale a pena contratá-los informalmente, sem carteira e sem muito custo social extra.

São desempregados apenas no sentido antigo de que se o produto crescer, o câmbio se desvalorizar ou os gastos públicos crescerem, serão contratados.

Mas por que o produto deveria crescer mais rápido aqui ou no mundo se sobra comida, sobra automóvel, sobra televisão, sobra quase tudo para os que continuam empregados? Portanto, poucos serão contratados. Outros, nunca mais, pois são velhos, ou porque têm educação demais ou porque têm educação de menos.

Portanto, as autoridades do governo, ao afirmarem que não existe desemprego, estão respeitando a lógica. Não pode existir mesmo porque não temos solução para o problema deles. Não é um problema brasileiro. Se não existe solução nem no exterior, não existe problema.

Somando todos, formam um conjunto heterogêneo que não merece um nome comum. A única coisa que podemos dizer é que são gente.

Não há o que comemorar no Dia do Trabalho. Vamos esperar o Dia das Mães.