início > textos Ano XVIII - 22 de setembro de 2017

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ÁGUA E AGRONEGÓCIO: MERCANTILIZAÇÃO DA NATUREZA

Água e agronegócio: MERCANTILIZAÇÃO DA NATUREZA

QUE BENEFÍCIOS AS NOSSAS EXPORTAÇÕES TÊM TRAZIDO PARA O POVO BRASILEIRO?

São Paulo, 20/06/2017 (Revisada em 22-06-2017)

Referências: O Povão quer comida. Só circo, não basta, Trabalho Escravo, Direito Sociais, Reformas Trabalhista e Previdenciária, Geração de Empregos no Exterior - Exportação de Matérias-Primas e Importação de Produtos Industrializados, Substituição das Importações, Reservas Monetárias - Evasão Fiscal, Cambial ou de Divisas.

Coletânea, negritos, explicações complementares, comentários e anotações em letras azuis por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

QUE BENEFÍCIOS AS NOSSAS EXPORTAÇÕES TÊM TRAZIDO PARA O POVO BRASILEIRO?

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

O POVO QUER COMIDA, SÓ CIRCO, NÃO BASTA

De fato é muito difícil entender o contido no título principal deste tópico que versa sobre os ditos benefícios trazidos pelas nossas exportações oriundas do setor rural.. O Povão quer comida. Só circo, não basta.

Algo parecido já era dito na Antiguidade, talvez há um ou dois milênios antes de Cristo. Aquele tipo de justiça às avessas, sempre em detrimento dos mais fracos e oprimidos é até hoje estudada nas faculdades de direito, sem que seja entendida a verdadeira injustiça praticada contra os sem estirpe.

Diante dessa antiga injustiça social, grande parte do produzido atualmente pelo setor rural brasileiro vai alimentar povos de outros países em que o IDH - Índice de Desenvolvimento Humano em média é bem superior ao nosso. Segundo dados da ONU - Organização das Nações Unidas, até o IDH dos cubanos é superior ao nosso. E a nossa Elite Vira-Lata nem se envergonha disso ao dizerem que o capitalismo é melhor que o comunismo ou socialismo.

Afinal, que melhores oportunidades tem os sem estirpe sem a proteção de governantes e políticos que de fato querem defender a preservação dos Direitos Sociais dos Trabalhadores, ao contrário do que vem fazendo o Governo de Michel Temer?

Na antiguidade os imperadores invadiam outras terras para conseguir comida e escravos. Os representantes dos imperadores nas terras conquistadas eram os próprios membros da elite do território conquistado.

No Brasil, desde o Brasil Colônia, a nossa Elite também representa os interesses de colonizadores (portugueses), neocolonizadores (ingleses) e recentemente de muitos daqueles sonegadores de tributos escondidos em paraísos fiscais.

EXPLORANDO O TRABALHO EM REGIME DE SEMIESCRAVIDÃO

Aqui, os produtores da nossa riqueza em reservas monetárias acumulada querem cobrar dos mais pobres brasileiros o mesmo preço que é pago pelos estrangeiros em dólares, que valem pelo menos três vezes mais que o nosso REAL.

Ou seja, para cada dólar pago pelo consumidor estrangeiro (por determinado produto por nós exportado), os brasileiros devem pagar pelo menos três reais.

O detalhe dessa questão está na diferença do salário médio dos brasileiros em relação ao salário médio pago nos  países desenvolvidos (industrializados) que importam as nossas matérias-primas. Em alguns países a média salarial pode chegar a 10 vezes a média brasileira.

A IMPORTÂNCIA DA ACUMULAÇÃO DE RESERVAS MONETÁRIAS

Em tempo, pergunta-se: Para que servem as RESERVAS MONETÁRIAS acumuladas a partir do Governo Lula?

Primeiramente é preciso explicar que as reservas monetárias são o resultado positivo constante do Balanço de Pagamentos (Contabilidade Nacional), que reflete o resultado favorável obtido pelo Brasil em suas relações comerciais e financeiras com os demais países.

Assim sendo, como exemplo simplório e genérico, podemos dizer que nossas exportações foram maiores que as nossas importações, sem que se leve em conta os demais quesitos do Balanço de Pagamentos.

Em resposta ao questionado, podemos dizer ainda que as reservas monetárias servem, entre outras finalidades, para garantir o pagamento das importações de produtos supérfluos que são os sonhos de consumos dos mais abastados.

Mas, as reservas monetárias também são utilizadas para importação de equipamentos de alta tecnologia, que na maioria dos casos poderiam ser fabricados no Brasil, gerando empregos aqui e não no exterior, porque geralmente são fabricados com matérias-primas exportadas pelo Brasil.

Contudo, segundo os porta-vozes do Governo Temer, as reservas monetárias estão sendo armazenadas para dar mais credibilidade ou confiança aos investidores internacionais que aplicam seu "dinheiro sujo" no Brasil.

Diante do disposto, foram sancionadas no Brasil várias leis de combate aos crimes de evasão fiscal, evasão cambial e evasão de divisas (que são as reservas monetárias). Com base nas disposições dessas leis, todos os brasileiros, em tese, teriam a possibilidade (lógica) de saber que os tais estrangeiros são sonegadores de tributos que "lavaram o seu dinheiro sujo" (do seu Caixa Dois) em paraísos fiscais, de onde vem o tal Capital Estrangeiro investido no Brasil.

Assim sendo, o saldo acumulado de reservas monetárias serve apenas para garantir o pagamento das altas taxas juros fixadas pelos membros do COPOM aos detentores do tal Capital Estrangeiro investido em Títulos Públicos brasileiros.

VOLTANDO ÀS MATÉRIAS-PRIMAS

Vejamos, então, o que está por trás da palavra-chave: matérias-primas (que têm maior peso e montante nas exportações brasileiras).

Tal como vem acontecendo desde os tempos do Brasil Colônia, estamos exportando produtos primários (in natura) que serão industrializados no exterior, gerando empregos lá, enquanto precisamos desses mesmos empregos aqui, para que os brasileiros tenham condições de consumir pelo menos uma pequena parcela da indispensável comida exportada.

Por isso, por várias vezes foi escrito neste site do COSIFE que durante os últimos 500 anos o Brasil tem sustentado toda a Europa e ainda outros países pelo mundo afora. Contudo, apesar de toda essa clareza, foram poucos os nossos governantes que de fato se mostraram preocupados com as mazelas do nosso Povo.

O MAIS IMPORTANTE É A GERAÇÃO DE EMPREGOS - SUBSTITUIÇÃO DAS IMPORTAÇÕES

O mais importante para o Povo seria a criação de empregos, mediante a substituição das importações de produtos simplórios, que geralmente podem ser fabricados em qualquer fundo de quintal ou numa garagem residencial ou ainda em maior quantidade num galpão abandonado por empresa falida em razão da preconceituosa recessão provocada pelos inimigos do povo brasileiro.

Mas, não basta criar empregos mediante a exploração do Trabalho Escravo, conforme pretende fazer Michel Temer com suas Reformas Trabalhista e Previdenciária que extinguirão Direitos Sociais que estariam garantidos pela nossa Carga Magna.

Afinal, para que serve a Constituição Federal diante das injustiças diuturnamente praticadas por muitos daqueles lotados nos Três Poderes da Nação?

É preciso que os empregos gerem bons salários, como os gerados no exterior, para que o Povão possa ascender à chamada de Classe Média, que é a principal consumidora do produzido no mundo inteiro.

O QUE OS ECONOMISTAS MONETARISTAS NÃO SABEM

Sem consumo não há trabalho. Sem trabalho não há emprego nem salário. Sem salário não há consumo, não há arrecadação tributária estadual e não há contribuição previdenciária. Sem consumo não há produção. Sem produção não há empresário. Sem empresário não há lucro. Sem lucro não há arrecadação de tributos na esfera federal. Sem arrecadação federal não há investimento público em infraestrutura. Sem infraestrutura não há como transportar os produtos que geram o crescimento das Nações. Ainda sem arrecadação não há investimentos em educação, cultura, saúde, esportes e em muitos outros setores como o da construção de moradias e da instalação e manutenção dos sistemas de saneamento básico, manutenção de ruas, avenidas, estradas, rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, sistemas integrados de transporte urbano, distribuição de água e esgoto nem energia elétrica. Sem consumidores chegam à falências os planos de saúde e os hospitais particulares. Sem consumidores chegam à falência as micros, pequenas e médias empresas, Sem consumidores chegam a falência as empresas de telefonia, internet e TV a Cabo. Sem emprego e salário acontece a inadimplência e assim quebram as instituições do sistema financeiro.

Diante de toda essa desgraça provocada pelos INIMIGOS DO POVO (trabalhador), acontece o tal RISCO SISTÊMICO (ocorrência de falência encadeadas) tão propalado pelos economistas do Banco Central. SEM TUDO ISSO SÓ HÁ RECESSÃO.

Quem não sabe de tudo isso?

Não sabem de tudo isso os economistas monetaristas que só defendem os interesses mesquinhos dos rentistas que operam no Shadow Banking System = Sistema Bancário Fantasma dominado por Bancos "Offshore" sediados em Paraísos Fiscais, especializados na ocultação de bens, direitos e valores de sonegadores de tributos que são titulares de empresas fantasmas ou de trustees constituídos naquelas "ilhas do inconfessável". Para eles o Capital não têm Pátria e se há governo, são contra. São favoráveis ao total anarquismo político e institucional, comandado pelos magnatas que detêm o chamado de Poderio Econômico.

Como diriam os nossos saudosos pais: Eles não sabem, não querem saber e têm raiva de quem sabe!!!

A BAIXA QUANTIDADE DE EMPREGOS GERADOS NO SETOR RURAL

Eis a questão crucial: Quantos empregos a atividade rural tem gerado no Brasil?

Sabendo-se que a agricultura é quase totalmente mecanizada, nem os velhos "boias frias" atualmente conseguem empregos. A mecanização das lavouras provocou o chamado de Êxodo Rural. As grandes cidades encheram-se de favelas.

Deixando de lado o EMPREGO, o consequente salário e o bem-estar social do nosso Povo, visto que o Governo Golpista já nos mostrou que o seu verdadeiro intento é o de anulação dos efeitos da Lei Áurea decretada pela Princesa Isabel um ano e meio antes da Proclamação da República em 15/11/1889, vejamos a seguir o que foi escrito no Le Monde Diplomatique - Brasil pelo engenheiro agrônomo Oswaldo Aly Júnior.

MERCANTILIZAÇÃO DA NATUREZA

Água e agronegócio: uma relação a ser mais bem examinada

Quando se analisa o aumento no volume das exportações brasileiras de soja, carne e açúcar e, consequentemente, constata-se o aumento do volume de água embutido nessa produção, conclui-se que é necessário pensar sobre os possíveis impactos ambientais que a exportação de produtos primários e semimanufaturados pode estar tendo sobre nossos recursos hídricos

Por Osvaldo Aly Junior - engenheiro agrônomo, membro da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra), doutorando em Gestão de Águas Subterrâneas no IGc-USP, pesquisador do Nupedor/Uniara-SP. Texto publicado em 02/06/2017 por Le Monde Diplomatique Brasil

AGROPECUÁRIA E AGROINDÚSTRIAS: O IMPACTO NEGATIVO DAS CADEIAS PRODUTIVAS

As cadeias produtivas da agricultura e das agroindústrias têm cada vez mais impactado os recursos naturais em nosso país. Recentemente a água tem se tornado objeto de atenção por conta de diferentes impactos e disputas (muitas vezes não explícitas) relacionadas com a mercantilização das águas doces, que envolve a manutenção dos ecossistemas, a agricultura de alimentos e de exportação, o setor urbano e industrial e a necessidade de garantir a segurança hídrica da população.

Pelo menos quatro fatores merecem ser destacados por terem contribuído para esse quadro atual de avanço do agronegócio (1) sobre a água superficial e subterrânea:

I - a crise da produção de proteína animal, em razão da doença da vaca louca na Europa e nos Estados Unidos;

II - a urbanização e a mudança de hábitos alimentares em países do Oriente Médio e da Ásia (com destaque para a China);

III - a elevação da demanda mundial de soja e etanol;

IV - a necessidade de o Brasil obter moedas internacionais para fazer frente aos custos das importações e pagamento da conta serviços.

(1) O avanço do agronegócio não é objeto do presente artigo, mas o mesmo vale para a produção de commodities minerais.

I - a crise da produção de proteína animal, em razão da doença da vaca louca na Europa e nos Estados Unidos

A doença da vaca louca, no final dos anos 1990, que dizimou boa parte do rebanho bovino principalmente na Europa, foi resultado da adição, na ração, de uma farinha composta por sangue e ossos de animais abatidos.

A proibição dessa prática, somada à falta de áreas para a criação em pasto, elevou a importação de soja, com o consequente aumento dos custos de produção, o que desencadeou a transferência da produção de bovinos para fora do continente europeu.

Essas foram as principais causas do aumento da produção de soja e bovinos no Brasil.

Para que se tenha uma ideia do peso desse setor em nossa balança comercial, em 2016 a exportação de proteínas animais (carne bovina, suína e aves) representou 20% do total das exportações brasileiras (mais de US$ 14 bilhões), ficando a soja com 5,8% (US$ 4,04 bilhões) do total das exportações.

A Revolução Verde (2), dispondo de vultosos financiamentos internacionais, vendeu a ideia de que o problema da segurança alimentar seria resolvido pela simples adoção de um pacote de tecnologias.

(2) Revolução Verde é o nome dado ao pacote tecnológico que envolve melhoramento genético, uso intensivo de agrotóxicos e adubação, mais a mecanização. A Revolução Verde trouxe como resultado aumento da produção e da produtividade de uma série de produtos, porém acentuou os impactos dessas atividades sobre o ambiente.

A garantia da segurança alimentar permitiu a intensificação da produção para atender à demanda do abastecimento do mercado interno e permitiu exportar commodities da agropecuária.

Contudo, em vários países esse abruto crescimento da produção agrícola trouxe consequências ambientais trágicas, esgotando e contaminando os recursos hídricos com agrotóxicos.

II - a urbanização e a mudança de hábitos alimentares em países do Oriente Médio e da Ásia (com destaque para a China)

O caso da Arábia Saudita é emblemático. No intento de se tornar um grande exportador de trigo, aquele país esgotou um importante aquífero que proveu segurança hídrica para sua população durante milênios. Entre 1987 e 2015, o país entrou numa viagem sem retorno, chegou a ser o sexto maior exportador mundial de trigo e em 2016 não plantou um pé de trigo.

Como resultado do esgotamento do aquífero, a Arábia Saudita elevou ainda mais sua dependência da importação de alimentos e iniciou a dessalinização da água do mar para garantir o consumo humano.

Outro caso de idêntica proporção aconteceu em razão do sistema de irrigação da amêndoa e do pistache adotado na Califórnia (Estados Unidos da América), com níveis de desperdício sem precedentes, levando ao afundamento (subsidência) dos terrenos.

A indústria alimentar vem promovendo erosão genética e uniformização do padrão alimentar mundial com um custo energético, hídrico e ambiental elevado. A base desse sistema, a montante, é a indústria petrolífera, que controla o setor produtor de agrotóxicos, adubos e sementes, e, a jusante, a indústria alimentar, que tenta impor um padrão alimentar de tipo europeu e norte-americano para todo o globo. Cada vez mais o que se come nas grandes cidades ao redor do mundo é a mesma base alimentar.

Esse sistema produtivo é responsável pela perda de 30% de todos os alimentos que se produz, conforme dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Essa uniformização da alimentação e da produção em países tropicais desloca, marginaliza e mina a base alimentar local.

Um bom exemplo vem da China, com a introdução da carne bovina na dieta. Esse país também deslocou parte de sua produção e abastecimento de proteínas animal (frango, suínos e bovinos) e vegetal (soja) para a África e a América do Sul. O mesmo ocorreu com a carne de frango nos países árabes. Mais recentemente, na Ásia, os recorrentes surtos de gripe aviária aumentaram a importação de carne de frango.

Esses sistemas de alta produtividade, intensivos no consumo de recursos naturais, são grandes demandadores de recursos hídricos, sejam eles superficiais ou subterrâneos.

Essa forma de fazer agricultura, juntamente com o processo de urbanização (3) da população, aumenta as batalhas pelo acesso, controle e consumo de água, gerando disputas inexistentes até então.

(3) Para ter uma ideia da disputa pela água entre consumo urbano e rural, na Califórnia, cuja maioria do território está localizada em regiões semiáridas, do total do consumo urbano, 50% se destina à rega dos jardins.

Outro fato. Enquanto desde 1950 a população mundial triplicou, a demanda por água cresceu seis vezes. No Canadá, entre 1972 e 1991, a população cresceu 3%, e o consumo de água, 80%, segundo a ONU. Na Alemanha, um cidadão consome nove vezes mais água que um da Índia, ou seja, o bem-estar nas sociedades de consumo desenvolvidas está associado à elevação do consumo de água e à disputa pela água entre os usos tradicionais e os novos usos.

III - a elevação da demanda mundial de soja e etanol

No Brasil, esse avanço da produção e da exportação de produtos primários ou semimanufaturados promoveu o deslocamento e a substituição de antigas lavouras e de pastagens pela soja, o milho, a cana-de-açúcar e o algodão, avançando sobre as áreas do cerrado e empurrando o gado em direção à floresta amazônica, juntamente com o cultivo de soja.

IV - a necessidade de o Brasil obter moedas internacionais para fazer frente aos custos das importações e pagamento da conta serviços

Nessa conjuntura de aumento da demanda internacional por commodities agrícolas e obtenção de moeda internacional, no segundo governo FHC foi retomado um conjunto de políticas para elevar os volumes de produção por meio do fomento à produção, da modernização de parte do setor da agricultura familiar via crédito subsidiado, da renovação do parque de máquinas e implementos, da assistência técnica e do apoio à comercialização e à exportação

Essa política teve sua continuidade nos governos Lula e Dilma.

NOTA DO COSiFE:

A partir de 2003, o Brasil passou a exportar em média por trimestre, mais do era exportado anualmente durante o Governo FHC. Em razão desse grande incremento das exportações e da redução das importações de supérfluos, a partir de 2005 o Brasil passou a acumular Reservas Monetárias (nunca antes conseguidas) e se tornou o quinto país maior possuidor dessas reservas internacionais.

Assim, nos últimos dezenove anos (até 2017), tivemos o fortalecimento econômico e político do setor ruralista de tal forma que se convenceram diferentes segmentos da sociedade de que a finalidade do agronegócio é o bem de todos. Porém, gera pequeno índice de empregos em relação aos demais segmentos operacionais ou produtivos.

Com isso, conseguiu-se o apoio de parte da militância de esquerda na mudança promovida no Código Florestal.

A RECESSÃO GERADA PELA REGRESSÃO DOS DIREITOS SOCIAIS

O setor rural, após o golpe de 2016 apresentou um conjunto de propostas regressivas, como:

A postura antipopular do governo golpista e do principal dos líderes ruralistas nos revela que os ganhos do agronegócio têm forte dependência da dilapidação dos recursos humanos e naturais. Dessa maneira, terra, água e mão de obra oferecidas a preços baixos distorcem as decisões relacionadas com a produção agrícola e com a exportação de alimentos e ficam expostas nas propostas de alteração da legislação apresentada por esse setor a fim de aumentar os impactos ambientais do agronegócio exportador.

CONCLUSÕES

A CRISE HÍDRICA E O CONSENSO EM TORNO DO AGRONEGÓCIO

Esse aparente consenso em torno da importância do agronegócio para o país gerou uma postura um tanto passiva nas diferentes esferas do governo e fica bem marcado nos conflitos e disputas pelo acesso à água, como ocorre na Bacia do São Francisco, na atual crise hídrica do Distrito Federal.

Nosso país, em função de sua formação geográfica, ambiental e do regime de chuvas, consegue obter duas colheitas anuais em lavouras de sequeiro (não irrigadas). Isso explica por que até o presente somos o país com a menor taxa de áreas irrigadas na América Latina: apenas 16%.

Segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 2006, o número de estabelecimentos agropecuários que irrigam seus cultivos é de 329 mil, num universo de 4,5 milhões. Esses estabelecimentos constituem 7% da área agrícola do país (4,5 milhões de hectares); seu volume representa 16% do total e gera 35% do valor comercializado pela agricultura brasileira. Entretanto, as perdas na irrigação são muito altas, não apenas no Brasil.

A FAO estima que, no mundo, cerca de 70% do volume de água ofertado nos perímetros irrigados se perde por evaporação ou percolação. A redução de 10% desse volume permitiria abastecer metade da população mundial.

É importante esclarecer que a água é vital para a produção agrícola e a criação animal. A questão está na quantidade consumida. O nó é que, quanto maior a produtividade e a velocidade de desenvolvimento da planta, maior o consumo de água. Até recentemente esse tema não fazia parte da agenda daqueles que trabalham com o melhoramento das plantas.

Para ter uma ideia do que representa esse consumo, empregando-se a metodologia da pegada hídrica (4), para produzir 1 tonelada de legumes, trigo, soja e gado bovino, o consumo de água é, respectivamente, 1 milhão de litros, 1,45 milhão de litros, 1,8 milhão de litros e entre 15 milhões e 42,5 milhões de litros. Outra análise para avaliar a eficiência do consumo de água é a renda gerada em dólar por quilograma vendido – no caso dos legumes, a média é de US$ 0,50; para o trigo, US$ 0,08; e, para a carne bovina, US$ 0,005.

(4) Pegada hídrica é o volume total de água doce utilizado para produzir os bens e serviços consumidos pelo indivíduo, comunidade ou produzidos pelas empresas. Ele avalia seu uso de forma direta e indireta.

OS PROBLEMAS CAUSADOS AO MEIO AMBIENTE

Quando se analisa o aumento no volume das exportações brasileiras de soja, carne e açúcar e, consequentemente, constata-se o aumento do volume de água embutido nessa produção, conclui-se que é necessário pensar sobre os possíveis impactos ambientais que a exportação de produtos primários e semimanufaturados pode estar tendo sobre nossos recursos hídricos. Entre 1997 e 2005, o volume de água empregado na produção e exportação apenas nesses três produtos saltou de 27,1 bilhões de litros para 460,1 bilhões de litros.

O avanço do desmatamento da Amazônia, a pressão agroexportadora e as mudanças climáticas colocam em risco essas vantagens comparativas naturais, já que a previsão é o aumento de períodos maiores de seca e crise hídrica para nossa população. Esse quadro elevará a demanda das águas superficiais e subterrâneas e poderá afetar a vida dos rios perenes e dos ecossistemas, já que são as águas subterrâneas que perenizam o leito dos rios e são exploradas quase sem controle pelos órgãos estaduais.

No caso do São Francisco, essa situação é preocupante, pois o aumento da captação de águas subterrâneas para irrigação de lavouras no norte de Minas (fruticultura) e no oeste baiano (soja e algodão, principalmente) tem como fonte o Aquífero Urucuia. Esse aquífero, no período das secas, é responsável por mais de 80% do volume de água do Rio São Francisco. Também é aí que ocorre a derivação de suas águas para o semiárido. Ou seja, existem diferentes tipos de uso, e é a pressão da sociedade civil que leva os órgãos gestores a agir.

Recentemente, a crise de abastecimento de água no Distrito Federal tem levantado a mesma questão sobre os diferentes tipos de uso e quem vai pagar a conta da falta de água.

Em São Paulo, a crise hídrica dos anos 2013-2015 atingiu pelo menos 78 cidades do interior, cujo abastecimento de água depende dos mananciais superficiais, o que acende uma luz para os processos de uso e ocupação do solo nessas bacias hidrográficas tomadas pelas culturas do eucalipto e da cana-de-açúcar, que promovem o avanço desordenado sobre a captação de águas subterrâneas.

DISCUTINDO OS IMPACTOS SOBRE A VIDA HUMANA, OS ECOSSISTEMAS E A ECONOMIA

É importante ressaltar que, do total da chuva precipitada, 80% é perdida para a atmosfera pela evapotranspiração, 10,8% vai para os aquíferos e 9,2% escorre superficialmente. Dessa maneira, as práticas conservacionistas mostram-se extremamente relevantes para garantir o armazenamento de água para a planta, a manutenção da vazão dos rios e a promoção da recarga dos aquíferos.

Ao mesmo tempo, além do aumento considerável no consumo de água, o desmatamento da Amazônia pela expansão da soja e criação de gado bovino coloca em risco o mecanismo de formação das chuvas de interior, produto dos chamados rios voadores formados pela evapotranspiração da floresta que é levada pelos ventos para os Andes e de lá desce e precipita nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Esse processo terá impacto não apenas sobre a vida humana, mas também sobre os ecossistemas e toda a economia.

Por entender que a água é um bem comum, e não uma mercadoria, e para discutir processos de gestão democrática e se contrapor à apropriação privada e predadora pelos diferentes setores exportadores de commodities, entre eles o agronegócio, um conjunto de organizações da sociedade civil decidiu organizar o Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama) 2018, a ser realizado em março, em Brasília.